Terapia Ocupacional

O código secreto

Estava finalizando umas anotações na sala de atividades, logo após a sessão de cinema, enquanto todos almoçavam. Parei alguns instantes para observar uma cuidadora auxiliando uma Querida a se alimentar. Recordei ter sabido que aquelas duas pessoas se conheciam há mais de vinte anos. Já pensou? Fiquei olhando a beleza e pensando na complexidade desta relação.

As duas já são idosas: a cuidadora tem setenta anos; a Querida, quase noventa e necessita de auxílio para realizar todas as atividades básicas e instrumentais da vida diária. Apresenta comunicação bastante restrita – não pela vida longeva em si, mas por ter adoecido em outro momento de sua vida, antes mesmo de se tornar idosa.

Direcionando naturalmente meu olhar – curioso, confesso! – em busca dos espaços de saúde, desejei conseguir registrar a beleza do diálogo que presenciei. Elas riam, lembravam de situações vividas e compartilhadas, numa forma de comunicação que parecia exclusiva, quase um código secreto.

Enquanto a auxiliava com a alimentação, a cuidadora brincava dizendo que daria uma nota quando terminassem – bastante atenta principalmente para evitar os temidos engasgos, estimulando-a direitinho, conforme orientação de sua fonoaudióloga.

Fiquei sinceramente tocada pela cena, ainda que “corriqueira” em meu cotidiano. Pensei nos anos de confidências, nas questões partilhadas – inclusive as mais íntimas, vez que a convivência pode nos apresentar tantas nuances do universo que é o outro.

Pensei nos momentos em que o adoecimento foi surgindo, impondo mudanças e adaptações, em como presenciaram e viveram as dores, os tratamentos, hospitalizações… Também os momentos em que puderam celebrar as conquistas, os ganhos e melhoras – uma da outra. Pensei no trajeto das afeto. Na reciprocidade… Pensei também na história de vida dessas duas mulheres, fortemente marcadas pelas presenças uma da outra. Senti admiração.

Pensei na beleza dessa dedicação, nos desafios que é cuidar e também ser cuidada; em estar tão dependente de alguém que te faça tudo, e que faça tudo bem… São mais de duas décadas entre banhos, refeições, momentos musicais, consultas, passeios, conversas, sonecas. Duas mulheres, há mais de vinte anos afinando e desafinando, interminadas.

O mais importante e bonito, do mundo, é isto:
que as pessoas não estão sempre iguais,
ainda não foram terminadas.”

(Guimarães Rosa)

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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