Terapia Ocupacional

Estuda, Ana, estuda!

De quarta-feira temos nosso dia de cinema. Gostaria que pudessem ser regados a pipoca e guloseimas gostosas que geralmente nos (me) acompanham durante os filmes, mas tudo bem.

Tenho que adequar minhas expectativas sempre: alguns idosos podem apresentar questões importantes de disfagia e outros podem nem gostar tanto assim de doces – de repente uma boa companhia é o que mais importa.

Então, dia desses assistimos “Que horas ela volta?”, filme novinho, novinho. Alguns detalhes foram por mim observados somente ao assistir com meus Queridos, pela segunda vez.

Trata-se, a meu ver, de um filme em que os diálogos são curtos e não muito frequentes, porém extremamente densos quando acontecem.

Os sons, em sua maioria, são ruídos do cotidiano. Ruídos de uma mulher que trabalha para cuidar da casa, na perspectiva de seu quarto – dos fundos, e dos lugares que poderia habitar, enquanto uma empregada doméstica.

Sons de porta batendo, aspirador de pó, cachorro latindo, armários da cozinha, pessoas fazendo refeições e conversas que estendem roupas no varal.

Nós assistimos em duas etapas, pois sempre combinamos de não nos estendermos muito, respeitando o ritmo e o interesse, que podem flutuar.

Às vezes cansa ficar duas horas sentado, dá preguiça, sono, fome, vontade de ir ao banheiro…

Ao final do filme, sempre tento estimular um resgate da história, também porque assistimos em duas etapas e podemos nos esquecer dos detalhes – o que pode interferir na compreensão de modo geral, penso eu.

Neste caso, fiz algumas perguntas mais direcionadas e obtive poucas respostas.

Uma senhora disse: não entendi o filme.

Nessa hora, fiquei num dilema silencioso e bem barulhento no mundo de dentro, me perguntando sobre ter acertado ou não a escolha do titulo da nossa sessão de cinema. Havíamos conversado sobre o filme num Grupo de Atualidades, em que a notícia explorada fazia importante destaque à atuação da Regina Casé no longa-metragem.

Mas sabe aquela história da análise de atividade?

Enquanto na graduação, aprendi que teríamos de fazê-la antes de a atividade ocorrer no setting, como parte de um planejamento que antecede o encontro.

Me questionei imediatamente e pensei: “poxa, mas assisti o filme antes! O que será que me escapou?”.

Na minha cabeça, já tinha analisado e sentido seu conteúdo, logo, já tinha feito a “análise de atividade”.

Hoje, estudando o Método Terapia Ocupacional Dinâmica (MTOD), tive acesso a uma outra maneira de pensar e embasar meu raciocínio clínico: quem faz a análise da atividade é o sujeito.

Porém, ainda assim, algumas vivências anteriores ressurgem e causam questionamentos – que são importantes, mas que às vezes provocam angústia sobre o que é “certo” e “errado”. Detalhe: em pleno atendimento!

Nessa hora não dá pra sair correndo, né? E nem telefonar para supervisora! Também não dá para pausar a cena – a vida é real, não tem nada muito combinado e também não tem roteiro…

A vida se faz nesses encontros, em que o inesperado está sempre presente – sendo convidado/desejado, ou não.

Então, o jeito é se acolher e permanecer ali, junto, viva e atenta, mesmo que tomada pelas incertezas e inseguranças.

Comecei a explorar os principais pontos do filme, perpassando inevitalvemente pela minha leitura e compreensão – emprestando meu ponto de vista, que também ia se compondo os demais olhares.

Combinei minhas colocações com algumas críticas que encontrei sobre o filme, buscando esclarecer e explicar certos pontos.

Ao final, eis que ouço:

– Ahhhh, agora sim entendi, PROFESSORA. É, o filme é bonito sim…

Ufa! Abri um sorrisão e fiquei – finalmente – num lugar “mais gostoso” dentro de mim.

Aquietei e continuei explorando, acolhendo as percepções, que aos poucos se faziam e iam sendo compartilhadas.

Passado o momento, busquei rever minha conduta, as devolutivas que fiz e a angústia que senti. Pensei sobre análise de atividades, sobre a influência que fazemos e também sobre ser “professora”.

No próximo texto, vou explorar melhor estes pontos, pautando-os em apoios teóricos e técnicos – que me sustentam e embasam a prática – até porque ficaria um texto gigante e, como diz meu irmão, “as pessoas iam esperar virar filme para assistir”, de tão longo que ia ficar.
Continua…


*Nota de 2020: não deixe para depois o que se pode fazer hoje. O risco de se deixar para lá é imenso! (risos)

Resultado: não faço a menor ideia do que estava planejando escrever, ou mesmo se já escrevi e ficou em alguma pasta, perdida pra sempre. Ficou aí a reflexão – ou pelo menos parte dela, né? – de uma “Ana Carolina, versão maio de 2016”, que agora após quatro anos e mais, está em plena quarentena e segue convencidíssima de pelo menos duas coisas. Número um: a procrastinação é meu sobrenome já tem algum tempo; número dois: estamos meeeesmo em contínuo processo de construção. Segue o lema da vida: estuda, Ana, estuda!

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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