Terapia Ocupacional

Creche para idosos?

A internet ampliou muito meu acesso às informações – tanto aquelas que me são úteis, quanto as que opto por consumir nos momentos de prática do ócio: o famoso, necessário, delicioso e desafiador dolce far niente.

Estava exatamente me deliciando num desses momentos, quando me deparei com a notícia: “Porto Alegre ganha a primeira creche particular para idosos“.

Nem preciso dizer que, imediatamente, fiquei nervosa, revoltada, p* da vida muito pensativa e provocada com a legenda, né?

Fui arrancada do meu momento relaxante de ócio, mas a causa é nobre.

Sabe, gente, sou terapeuta ocupacional e tenho descoberto um amor muito grande por atuar junto aos idosos. Isso tem me nutrido de vários afetos, e também de necessidades: estudar mais, aprimorar minha técnica, alcançar novos olhares e maneiras de significar essa fase da vida. Então, ler matérias com este título ainda hoje me surpreendem. Creche para idosos? Por um acaso o idoso volta a ser criança? Se você ficou inclinado a responder “sim”, vamos conversar um pouco? Podemos – e precisamos! refletir mais e melhor sobre, para problematizar com crítica e responsabilidade esse período da vida. Continua comigo – sempre quis falar isso (risos).

Veja, talvez possamos refletir – de forma muito simpificada – pensando nos “pólos da vida”: no início dela está o período da infância, em que vivemos tudo pela primeira vez, conhecendo o mundo, nos desenvolvendo… Geralmente, vemos esse momento e seus desafios com leveza e esperança. No outro “pólo” está a velhice, ou o período da maturidade, em que os anos se acumulam junto das experiências todas, que vão se somando. E, da mesma forma, ainda que já tenhamos vivenciado muitas situações, continuamos precisando aprender a lidar e conviver com as limitações de um organismo vivo, que segue em busca de adaptar-se diariamente. Até aqui, estamos empatados, eu acho. Porque me parece que este processo é inerente a todas as fases da vida…

O organismo de um idoso já correu muito, filtrou muito, digeriu muito, pensou muito, amou muito, lutou muito, enfim, todos os dias, no silêncio do mundo fisiológico, esse organismo travou – e trava – batalhas para sobreviver e manter-se saudável, lidar com as adversidades e permanecer vivo. Desse modo, ser idoso também não poderia significar ou estar associado com o conceito de doença e de adoecer. Não se “sara” de velhice.

Quando adotamos a ideia – por equívoco, falta de crítica ou de informação – que o idoso volta a ser criança, corremos um grande risco de infantilizá-lo. Vamos pensar juntos: como posso inferir ou supor que uma senhora de noventa e seis anos, que vivenciou a Segunda Guerra Mundial, viajou para vários países, experimentou um monte de comidas diferentes, respirou “vários ares”, ouviu e viu as músicas e culturas de diversas nações; trabalhou, se casou, criou seus filhos, que acompanhou o nascimento de seus netos e binestos, volta a ser criança? Como eu, uma adulta de vinte e seis, posso classificá-la/percebê-la assim? Me parece tão simplista, tão reduzido…

O fato dela precisar de auxílio para realizar suas AVDs (atividades de vida diária) e AIVDs (atividades instrumentais de vida diária) também não me dá argumento técnico para assumir que essa senhora “voltou a ser criança”. Não conseguir mais comer sozinha, não ter mais controle de esfíncteres e precisar usar fralda, ter perda de memória, confusão e qualquer outra alteração cognitiva também não significa que voltou a ser criança… Ah, mas ela ficou teimosa, ranzinza, brava e ficou triste, não quer se alimentar, não quer tomar banho. Tudo bem, entendo que talvez dizer/pensar que ela volta a ser criança tem a ver com a constatação da necessidade contínua de ajuda/supervisão para realizar as atividades mais básicas da vida, como tomar banho, alimentar-se… Mas, isso a faz voltar a ser criança? A ser um bebê? E toda sua história de vida? A gente apaga? Desconsidera? Então, cuidar de um idoso e cuidar de uma criança é a mesma coisa?

As questões emocionais desse período também são extremamente peculiares e, ao mesmo tempo, relativas. Conheço idosos ativos e cheios de recursos emocionais que também tem mais de noventa anos e tem bastante de sua independência preservada. Mas Ana, o idoso volta sim a ser criança emocionalmente falando… Hum… Será? Isso não seria uma forma engessada e simplista de perceber o processo de envelhecimento, pautado num senso comum que construiu esse olhar social empobrecido e desconsidera toda a complexidade dessa fase da vida?

Obviamente que essa reflexão não se esgota aqui..

Mas quis fazer uma provocação para o exercício desafiador e necessário de mudar nossas lentes, rumo à construção de um novo paradigma – ser idoso faz parte do nosso processo de viver, do ciclo “completo” da vida. Caberia também aqui uma conversa sobre os aspectos da finitude, mas outro dia comento sobre.

Há uma questão matemática e teórica: quanto mais velhos, mais próximos estamos do nosso fim. Pode ser poético e romantizado pensar que os fins são começos… Mas essa ideia não é real para a cronologia da vida humana, o fim não nos faz voltar ao começo. A pessoa velha não volta a ser a criança. E, aparentemente, só existe uma receita eficaz para não ficar velho, para não ser idoso: morrer antes…

Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Qualquer dia a gente se encontra. Mário Lago

Enfim, esse texto é um convite para disparar uma reflexão e te sensibilizar a ampliar seu olhar sobre esse assunto e, principalmente, estar mais atento aos julgamentos que poderão ser emitidos por você, pois o senso comum muitas vezes nos faz reproduzir crenças, valores e hábitos que sequer condizem de fato com o que acreditamos.

Um beijo doce para minhas amigas terapeutas ocupacionais Taiuani Marquine e Thaís Fidalgo, pela ajuda afetiva e disponível com o texto desse post.


*Nota de 2020

♥ Sobre a fotografia [de Breno Rocha] do post:

65 ANOS DE AMOR: ENSAIO DE IDOSOS ENCANTA A INTERNET

Seu Zeca Leal, de 100 anos e Dona Ivanira Milfont, de 89, fizeram um encantador e singelo ensaio fotográfico, para comemorar Bodas de Safira (ou platina), após 65 anos de matrimônio.

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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