Terapia Ocupacional

Dia Internacional da Síndrome de Down

Hoje temos mais uma data importante: 21/03, dia Internacional da Síndrome de Down.

Os holofotes estão especialmente acesos, coloridos e piscando para nos incentivar a compreender mais sobre essa situação genética, de modo a ampliar os entendimentos sobre a Síndrome de Down e, principalmente, sobre as pessoas que nasceram com a síndrome.

Penso que alguns esclarecimentos teóricos podem ser bem-vindos, na medida em que nos ajudam a refletir de modo mais crítico,  nos auxiliando também a evitar a reprodução do senso comum, embutida tantas vezes nos termos utilizados, que estão carregados de preconceito e desinformação. Vamos lá:

1 – Quando for se referir às pessoas com Síndrome de Down, o termo “portador” não é mais atual, tendo em vista que ninguém porta uma deficiência; não se trata de um objeto (como portamos nossos documentos, o celular ou um casaco nos dias frios). O correto é dizer/escrever “pessoa com deficiência“, porque a pessoa tem deficiência, mas não está reduzida a ela. Dessa forma, o vocábulo “deficiente” passa a ser adjetivo e não substantivo.  Parece capricho ou esmero, mas observe a diferença que faz:

Os deficientes jogam bola.
Pessoas com deficiência jogam bola.

Veja, quem pratica a ação é a pessoa – o sujeito – e não a deficiência, não é?

Quem corre, anda, come, dorme, vive e ama é uma pessoa – substantivo – e não um adjetivo, seja ele qual for – gordo, negro, loiro, careca, dentre outros.

2 – É correto falar/escrever, além de “pessoa com deficiência“, pessoa que TEM deficiência e pessoa que NASCEU COM, lembrando que a palavra deficiência é uma terminologia genérica e, portanto, abarca todos os tipos (física ou motora, intelectual ou mental, sensorial e múltipla);

3 – Para se referir às pessoas sem deficiência, o correto é dizer: pessoas comuns, pessoas sem deficiência. Afinal, o que é ser normal?

Aos desatentos e desavisados: muito cuidado com os termos “defeituoso”, “inválido”, “doente”. São ofensivos, além de doerem nos ouvidos e corações alheios. Se for para falar algo empregando essas palavras, tenho uma dica de amiga, super valiosa: fica em silêncio e se informa, beleza? (Com todo respeito, risos).

4- Podemos utilizar os termos síndrome genética, ocorrência genética e situação genética, evitando escrever e falar anomalia, mutação, erro e doença.

5- A Síndrome de Down não é uma doença, por isso não se utiliza o termo/conceito de cura, pois trata-se de uma ocorrência genética que não se modifica.

6- A palavra deficiência está aí para ser usada, com liberdade e sem receios – não há porque escondê-las ou disfarça-lás. Temos mesmo é que vivê-las e “convivê-las”.

Isto posto, gostaria de pensar um pouquinho no atendimento da Terapia Ocupacional às crianças com Síndrome de Down. Gente, criança brinca. Certo? Pelo menos é o que todas deveriam poder fazer. Então, brincar é a principal atividade, é o fazer da criança, a linha central que tece seu cotidiano.

Assim sendo, o brincar é instrumento da terapia ocupacional na prática infantil. É brincando que a gente vai apoiar, estimular, desenvolver, ampliar… Porém, necessariamente esse brincar precisa estar impregnado de objetivos, o tempo todo? Isso é, de fato, brincar?

Não pretendo definir ou chegar a uma conclusão única e estanque. Pelo contrário, é uma provocação mesmo…

Até aqui, tenho entendido que o brincar de todas as criança pode ser livre, espontâneo, desejado, alegre e vivo – e também terapêutico. Incluindo-se aqui o brincar de uma criança com ou sem deficiência.

Os estímulos são bem-vindos e necessários no contexto terapêutico, de tratamento, e podemos lançar mão de várias técnicas e recursos para favorecer o desenvolvimento das potencialidades presentes e dos pontos que precisam melhorar – afinal, toda criança tem suas facilidades/habilidades e desafios a serem vencidos e conquistados.

O que estou querendo dizer, é que este brincar tem que ser cuidado e estimulado, preferencialmente num contexto que não o coloque como uma exigência ou obrigação, em que se perseguem metas, avanços e ganhos; em que o prazer, a diversão e as delícias da infância ficam lá, silenciadas, diminuídas e esquecidas, em segundo plano, às custas da evolução terapêutica.

Importante é também o caminhar e o caminho, não só o resultado em si, a linha de chegada. Essas pessoinhas podem ser estimuladas também em outros espaços, fora dos settings terapêuticos. Como? Brincando! Sendo amada, confortada, acolhida e respeitada em seu tempo de ser e aprender.

Sim, uma criança com Síndrome de Down levará mais tempo para desenvolver-se: para sentar, rolar e falar. Mas, vai chegar lá, acompanhada da doçura, peraltices e choros: o que toda criança faz. Ela também vai desenvolver sua personalidade, gostos e preferências, assim como a educação que receber influenciará seus hábitos, valores e crenças. De novo, como toda criança.

Então, ser diferente é normal?

Ixi… Acho tão complexa essa ideia. E, sinceramente, não sei nem responder. Estamos tentando classificar e definir os seres humanos em categorias há tanto tempo… E até hoje não conseguimos muito bem, me parece. São tantos jeito de ser, estar, fazer no mundo… A vida real tantas vezes se tá mais longe do que perto da teoria. Chega a dar nó! Então, acho que vou deixar essa frase pra lá e ficamos assim… O importante é caber tudo isso que somos nesse mesmo mundo, tudo ao mesmo tempo: nosso maior desafio político, social e cultural.


Agradecimentos especiais à Leila Cestari e Thaís Fidalgo ♥

Referências:

  • MORAES, G.C. Atividades: uma compreensão dentro da relação triádica. São Paulo: CETO – 2008.
  • PELLEGRINI, A. C. Brincar é atividade. Revista do CETO, p. 41-46, 2008.
  • Informações e cartilhas do site Movimento Down, disponíveis em: http://www.movimentodown.org.br
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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

2 Comentários

  • Lúcia F. Bonito

    Texto esclarecedor e educativo! Excelente leitura para qualquer profissional de saúde.

    “Importante é também o caminhar e o caminho” – Levei essa frase comigo! Sempre respeitando a individualidade, o tempo e o processo do outro ser.

    • @ni_mello

      Lúcia, que gostoso receber um comentário seu!
      Obrigada pela consideração em me escrever e pela sua visita.
      É muito bem-vinda por aqui, viu?
      Carinho.

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