Terapia Ocupacional

Nem tudo são flores

Tenho escrito bastante sobre as delícias vivenciadas no trabalho, advindas da minha atuação como terapeuta ocupacional. Mas, assim como em diversas áreas, nem tudo são flores. O espaço precisa ser construído diariamente, com a equipe e com nossos sujeitos – meus Queridos. E é um desafio diário, pois pode parecer mais do mesmo e, de certa forma, gerar um certo desgaste quando nos vemos “repetindo” toda hora “porque viemos e a que estamos”.

Precisamos usar muuuuuito a criatividade e conhecimento, somados à doses de humor e café, para lidar com o desconhecimento sobre nossa atuação, sobre nosso olhar profissional, como terapeutas ocupacionais.

“A criatividade requer coragem” – Henri Matisse

Particularmente, o desconhecimento a profissão não me abala tanto (eu mesma nunca tinha ouvido falar de Terapia Ocupacional – ou T.O. – antes de me graduar), nem mesmo no senso comum. O duro, duro mesmo, que me deixa de cabeça quente, orelhas em pé e bochechas vermelhas, é ter de presenciar e conviver – institucionalmente – com decisões baseadas no equívoco do desconhecimento, porque isso tudo atravessa a clínica – que é soberana! Você não sabe o que eu faço, tudo bem. Ninguém é obrigado a saber tudo. Mas, se você me contratou, após um processo seletivo em que você ditou as regras, minimamente precisamos conversar sobre o que estudei para fazer, não é mesmo? Chances enormes de que eu saiba mais sobre TO do que você, meu querido empregador. Vamos conversar!

Além dos tensionamentos éticos da relação institucional, essa “coisa toda de não saber e achar que sabe” acaba interferindo – às vezes até esvaziando – o sentido daquilo que estava me propondo construir com o sujeito. Não se trata de colorir os desenhos que estão disponíveis on-line, como se impressos aleatoriamente. Tem aí meu raciocínio como terapeuta ocupacional – ativa e um processo terapêutico, uma relação entre mim e o sujeito, da qual você não faz parte, entende?

Essa semana mesmo, precisei pontuar com raiva firmeza, pero sin perder la ternura, que os desenhos trabalhados e exibidos no na sala de TO – cuidadosamente escolhidos para exposição no varal de mini-prendedores coloridos – estavam muito bem pautados no contexto clínico e terapêutico dessa relação. Tem uma história ali. Um processo… E por isso, afirmo com toda segurança e convicção que não se trata da infantilização da idosa que os fez, pelo contrário! Cada mínimo detalhe e decisão esteve pautado no desejo dela. No que ela escolheu, vez que é ela quem decide o que irá colorir, ela seleciona as figuras conforme seu desejo, com  encomendas bastante específicas, inclusive: hoje quero colorir crianças tomando sorvete; agora quero trabalhar com as profissões, depois poderemos começar a trabalhar temas da Páscoa, não podemos “Carrolina”? E assim por diante.

Sua técnica de pintura é apurada? Talvez sob a óptica de um artista plástico, com certeza não. Mas veja:  estamos falando de uma pessoa de cem anos de idade, com um quadro bastante desafiador de diabetes, cuja visão já não alcança tantos detalhes e, ainda assim, DEFINE diariamente suas preferências e sem se se limitar. Quando tem detalhes, verifica se está compreendendo o traço,  faz questão.

Essa pessoa em questão, vai todos os dias na sala de TO, ESCOLHE e DECIDE o quê e como irá fazer. E mais: quando sabe que teremos alguma comemoração ou visita especial ela é quem SUGERE que a sala seja decorada, para recebermos bem nossos convidados. Quer mais terapêutico que isso?! É lindeza demais!

O processo fortemente ancorado na relação se sustenta, ainda que quem esteja de fora necessite ou questione a “importância”, a função ou o “valor” daquele “monte de desenho pintado”, pendurado num varalzinho… Falamos aqui de uma relação única e construída num espaço de historicidade particular e individual – cada pessoa tem SUA história, não é?

Fosse algum tempo atrás, esta situação me geraria uma crise importante, pelo não reconhecimento, não qualificação e até certa desqualificação do meu trabalho – construído com cuidado, afeto e com TÉCNICA. Estudo muito, invisto emoção, tempo e também dinheiro, para “simplesmente mandar” os idosos a colorir uns “desenhinhos” com motivos infantis e depois pregar na parede. Absolutamente não é por aí. Se essa for a intenção ou a necessidade institucional, aliás, podem contratar um profissional bem mais barato e colocar em meu lugar.

Como nem tudo são flores, a gente sorri, se posiciona, pontua o contexto e a relação estabelecida, REPLETA DE SIGNIFICADOS sutis e particulares: entre mim, meu sujeito e sua atividade, pautada, portanto, na relação triádica – paciente, terapeuta e atividade. Hoje falo com firmeza e com o sorriso confiante, porque não sou obrigada (risos). Avante!


Cada canto do paciente pode ser vasculhado pelo que ele associa entre telas, esculturas, tapeçarias e culinária. Em cada um deles vai se dizendo de um querer, gostar, de uma composição, de sua destruição na criação de um projeto sobre o que é melhor, mais bonito, mais fácil, enfim, o melhor possível. Terapeuta e paciente, cogeradores de histórias possíveis, que são desenhadas no contexto das atividades”
Jô Benetton (1994)

13

Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

2 Comentários

  • Daniel Dahdah

    Ana, eu li o texto com o olhar de TO e reli com o olhar de Daniel. Emocionei-me por duas vezes! Achei incrível como é universal este sentimento e forma que lidamos com tais questionamentos. Gosto das pontuações e é sempre valioso lembrar que, como agentes educativos que somos, precisamos levar os questionadores a refletir sobre os seus questionamentos e não só respondê-los. Trabalhar com idosos numa sociedade que se recusa a envelhecer e a morrer é tarefa árdua e diária, mas imensamente gratificante. Isso porque o que se constrói na relação triádica não se limita a essa relação: essa construção é fluida e se externaliza, possibilitando que as mudanças feitas em nós e nos sujeitos, também transforme outras relações, outros espaços… E esse é um ciclo contagiante… de pequenas mudanças, transforma-se o mundo!

    • @ni_mello

      Dani,
      Seus apontamentos me fizeram ampliar a compreensão sobre a ação educativa que nós também fazemos através e por meio das relações estabelecidas, que extrapolam os settings e promovem mudanças também para outros espaços, vínculos e redes de interação. Agradeço pela consideração em visitar a página e pela generosidade em me escrever. Um beijo cheio de afeto e gratidão. Volte sempre!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.