Terapia Ocupacional

Será que ela tá confusa?

Era uma segunda-feira e, como de praxe, fazemos rodas de conversa para um bate papo em que seja possível, principalmente, saber um pouquinho das novidades: das gentes todas, dos acontecimentos do residencial e também do mundo, de forma geral.

Como não podia ser diferente, considerando-se o atual contexto político, neste dia de grupo tal pauta fora explorada através de perguntas curiosas e carregadas de certa indignação, acompanhadas também de olhares atentos e um pouco cansados.

Acho que desiludidos – assim como o meu.

“Ana, eu vejo as notícias na televisão, mas não entendo”.

Fiquei pensando e respondi: olha, nem eu, viu? São tantas informações ao mesmo tempo, que também fico confusa e não me sinto informada.

Nessa toada, exploramos um pouquinho as questões que tem sido abordadas nas mídias de forma geral – estou quase sempre acompanhada de um cabo HDMI e de um computador, pois assim conseguimos olhar juntos a Internet e suas possibilidades – como os jornais online, que projetados na televisão “grandona”, ficam com letras acessíveis e coloridas, permitindo aos meus Queridos acessar as notícias no formato tecnológico e digital.

Com frequência, mostro o Facebook, vídeos com músicas…

Também acessamos sites, contextualizando a busca com aquilo que surge na espontaneidade de uma boa conversa durante os grupos.

Será que o jogador de futebol fulano de tal ainda está vivo? Como é mesmo a continuação daquela música que tem isso e isso no refrão?

Às vezes, também recebo encomendas: que tal você procurar sobre a vida do beltrano, ele era alguém de quem eu costumava gostar, era meu artista preferido de tal época, era meu amigo, e assim por diante…

Acho uma delícia!

Algumas pessoas, inclusive, pedem para si uma cópia do resultado da pesquisa – faço uns textinhos com aquilo que busco enquanto planejo algumas atividades, principalmente quando trata-se das biografias, também como forma de registrar nossa trajetória enquanto grupo: o caminho que estamos trilhando juntos – nossa historicidade.

Então, eis que nesta segunda-feira, após minha tentativa de organizar os fatos e trazê-los de forma mais simples e apreensível, uma das minhas pérolas, com um jeitinho cuidadoso e meio escondidinho me chama e diz, em tom temoroso: os revolucionários não poderão vir atrás de você? Falar o que você falou hoje não te trará problemas?

Sorrio com todo meu coração.

Se meu olhar estivesse desatento para o espaço de história dela e para a nossa historicidade, teria feito outra leitura de sua fala.

Pensaria, talvez: ixi, com 96 anos, certamente está confusa. Será que está com alguma infecção? Está desidratada? Ela não é assim…

E simplesmente reproduziria um estereótipo negativo, algo que corremos o risco de fazer cotidianamente, sem nem perceber. Não que não seja importante pensar em tudo isso na clínica com idosos, muito pelo contrário. Estar atento aos sintomas é também compromisso, nossa responsabilidade.

Porém, meus caros, esse é o ponto principal.

Pergunta da vez: suas falas – sobre perseguição política, eram ou não eram consequências de um sintoma?

Agora, vamos aos fatos: essa senhora em questão nasceu na Bélgica, em 1920, e foi criada na França. Minha Querida vivenciou, ainda menina, as consequências da Primeira Guerra Mundial (que durou até 1918). Quando completou 19 anos, eclodiu a Segunda Guerra Mundial. Sentiu na pele o medo, a repressão e opressão. A violência, a censura…

Preocupou-se comigo, pois discutia frequentemente os sobre política (e não sobre partidos!) e tensionava algumas condutas dos representantes eleitos, por ser o assunto mais frequente dos noticiários. Compreendi que talvez, aos olhos de minha Querida, estaria me posicionando politicamente “contra o regime vigente”, e por isso, corria o risco de ser “acusada” de práticas subversivas.

Acolhi com afeto e muita atenção o que ia dizendo e exploramos juntas: os revolucionários, em sua leitura, eram os manifestantes que estiveram em vários lugares do país – dados reais e atuais. Se referia aqui às manifestações que ocorreram por todo país, em função do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

A palavra golpe, sempre muito presente nas notícias, induziu a uma interpretação/compreensão também já vivenciada – e temida, por ela.

Ela estava, com certeza e acima de tudo, preocupada comigo.

É necessário um movimento de interesse, disponibilidade e de técnica, que exige postura ativa e implicada. Para, inclusive, compreender além do que está compondo sua história: seu sotaque francês, que transforma-se em francês puro quando seus afetos ficam mais intensos – como no caso.

Nesses momentos, sorrio e digo brincando que não entendi nada. Ela então balança a cabeça, dando umas batidinhas com a mão na testa, como quem se percebe “fazendo confusão” e volta a falar “brasileiro”, como brincamos de chamar o português do Brasil.

Assim, meu movimento está intimamente conectado com o que ela pensa, faz, sente e associa.

Presto atenção. Observo tudo… Tento entender como ela pensa, a partir de qual lugar me conta sua história e a história que está sendo construída no momento presente, de onde está a olhar.

Isso tudo cabe lindamente na relação terapêutica estabelecida entre nós.

E, também por isso, faz sentido, sustenta-se e tem em si uma lógica particular, exclusiva dessa relação.

Tá vendo só? No fim das contas, mais lúcida que eu!

E, com certeza, com uma infinidade de memórias que voltam vivas à vida nesses encontros de afeto, escuta, disponibilidade e cuidado.


 

“São essas imensas coisas pequeninas, bordadas com fios de luz no tecido áspero do cotidiano”

(Ana Jácomo)

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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