Terapia Ocupacional

As pulseiras que fizemos

O cenário: um residencial para idosos – meu trabalho.

Personagens principais: eu, terapeuta ocupacional, e uma Querida residente.

Havíamos acabado uma roda de conversa bem gostosa e leve. Alguns participando mais ativamente, outros observando e, ainda, outros cochilando – viva a liberdade de escolha! Viva as diversas maneiras de estar! Fazia uma tarde ensolarada e quente, típica de verão. Era sexta-feira.

Ao término do nosso grupo, que aconteceu no lounge da sala de televisão, fui para a sala de atividades organizar os materiais utilizados e anotar os pontos discutidos e minhas observações. De repente, me vem à mente os primeiros dias de trabalho ali. Tínhamos poucos residentes e estávamos nos conhecendo, nos ambientando… Era o início de uma história. Inquieta e agitada pela presença do novo, convidei uma senhora para sentar-se ao meu lado, naquela mesma sala. Ela também estava como eu, inquieta e agitada, porém acompanhada de algo a mais: tinha angústia. Ainda assim aceitou meu convite.

Eu não sabia muito bem como ia fazer para acolher seu desejo de querer ir embora, de voltar para sua casa. O dado de realidade nesse contexto poderia ser cruel. O que ia adiantar repetir e repetir que ali era sua nova morada? Me lembro de dizer algo assim como “você pode ir embora comigo” – esse era, de fato, meu desejo: queria literalmente levá-la para casa… Deu certo! Claro que não a levei para lugar algum, pelo menos não concretamente.

Arrisquei um novo convite: que experimentássemos as miçangas. Sorrindo, ela comenta que as bolinhas lembravam pérolas, sugerindo que fizéssemos algumas pulseiras. Em instantes, meu pensamento retorna ao momento presente, e me dou conta que, desde então, as pulseiras estiveram ali, em seu braço esquerdo.

Uma colega de trabalho, ao me perceber observando, comenta que Dona S. só tira as pulseiras para tomar banho e que assim que se apronta, as coloca outra vez, espontaneamente.

Cinco meses de lá para cá. As contas já estão descascando, desbotadas. A memória não apresenta melhoras e também já não é mais a mesma de antes. Muito já se perdeu – limitações impostas pelo prognóstico. Mas, o afeto do momento em que as pulseiras foram confeccionadas parece transpor todos esses desafios… Como se as bolinhas estivessem ainda impregnadas de todo carinho e acolhimento vivenciados naquele dia.

Dona S. não consegue mais recordar seu nome completo, nomear alguns objetos, expressar-se de maneira organizada.. Mas ainda lembra-se – diariamente e de forma espontânea, de colocar suas pulseiras, aquelas que fizemos.

“A promoção das atividades como veículo de aquisições de fora para dentro subsidia tanto a função terapêutica como a ação educativa. Aqui, estamos reforçando a ideia de que, na terapia ocupacional, os elementos do mundo externo (o que é de fora), representados fortemente pelas atividades, exercem influências no mundo interno, em direção a integrações e interações.” 

Jô Benetton (2008)

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

2 Comentários

  • Maria Rita

    Olá Ana, sou Maria Rita, TO da pág Tecendo Sentidos no Face. Não pude deixar de comentar. Obrigada pelo contato que fez conosco que ao mesmo tempo foi um convite para visitar a sua página. Seus textos são uma “lindeza” (como vc diz), senséveis e convidam à leitura.
    São nos exemplos como este de sua Querida e suas pulseiras, que vemos os efeitos da nossa profissão. É realmente a construção de um “afeto entre” terapeuta e cliente através da atividade que a TO existe. por isso é tao difícil, para muitos enxergarem…

    • @ni_mello

      Maria Rita,
      Obrigada por ter visitado a página e pela delicadeza em deixar seu comentário. São movimentos como esse que nos auxiliam a fortalecer nossa profissão, pelo apoio mútuo que podemos fazer uns aos outros. Você é sempre bem-vinda neste espaço! Sigo também acompanhando a página Tecendo Sentidos no Facebook. Um beijo cheio de afeto.

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