Pessoalidades

De repente – mas não tão de repente assim: trintei!

Trinta:
[senta que lá vem textão]

Antes eu cantava a plenos pulmões aquela música que diz sobre “querer saber bem mais que os vinte e poucos anos”. Depois, cantava “vinte e muitos”, achando graça. Mas agora serão trinta, redondinho. Me lembro de repetir ao longo do ano passado que queria chegar aos trinta anos sendo minha melhor versão. Estava fazendo uma dieta saudável, seguindo o plano alimentar elaborado de acordo com meus objetivos e necessidades. Me exercitava todos os dias. E seguia na análise, de segunda e quinta-feira.

No ano anterior, em 2017, havia me demitido de um trabalho que estava me adoecendo e segui em frente. Fiz tudo o que o coração parecia pedir e precisar. Estava me cuidando. Não sei precisar por quanto tempo segui essa rotina. Nem me lembro mais… Agora parece uma memória muito remota de mim. E aí 2018 me desafiou. Senti ansiedade a ponto de tremer, de transpirar até molhar as roupas. Me desesperei. Fiquei paralisada. Foi difícil me reconhecer assim, sem conseguir me conter, sem conseguir que tudo não transbordasse para o mundo externo. Para minhas relações pessoais, para o meu trabalho. Precisei aceitar meu coração batendo feito o samba do criolo doido, enquanto na cabeça tocava uma ópera melancólica.

Enfrentei muitas noites de insônia, com meu pensamento dando voltas em mim. Lidei com a alegria de ver o sol chegar e amparar aquela minha solidão, distraindo o cansaço pelo sonho que não foi dormido, pelo repouso que só o corpo pôde experimentar, e com ressalvas. A ansiedade é um processo muito solitário – porque não existem duas iguais. Ela é única para cada pessoa. E não acho que tenha muito jeito de explicar, também.

Eu tive que me abraçar assim, carregando uma pequena coleção de noites mal dormidas, de dias em que senti minha existência tão distanciada do que havia idealizado. Era pra ser minha melhor versão, lembra? Tive medo de não conseguir avançar e duvidei de mim. Dormia quando estava exausta de pensar em como mudar. Segui me tratando com bons profissionais. E aqui vai um conselho – se é que isso existe e presta pra alguma coisa: o amor é imprescindível e sou só gratidão por tanto. Mas é preciso cuidar desse amor; do que vem dos outros, do que é dedicado e também daquele que nos é próprio.

O conselho: busquem ajuda profissional. Fim do conselho. Com apoio, encarei de frente o medo de, literalmente, me ver feliz. Louco e lindo. E muito, muito sofrido. Completamente sem lógica matemática ou física. Mas totalmente conectado com minha história. Com o que meus olhos e demais sentidos registraram sobre o que fui vivendo, sobre como vim existindo até aqui.

Engordei alguns quilos, escrevi uma dissertação, fiz algumas tatuagens. Viajei. Colocamos o carro à venda. Cortei o cabelo. Fiquei sem energia para os exercícios físicos. Cortei mais o cabelo. Comi todos os doces que tive vontade, sem medir as quantidades e sem parecer me importar muito com as consequências. Também fiquei muitas horas sem comer nada. Vi o Felipe aprendendo a surfar, enquanto me ajudava a superar a força dessa maré. Ele se equilibrando na prancha e eu tentando fazer o mesmo, só que em cima dos meus próprios sapatos. Estive com amigos com quem pude partilhar. Dividi com outras mãos as alças das sacolas pesadas.

Ri muito. Chorei muito. Tomei cerveja e vinho e mojito nas quintas-feiras. Tomei também o que o médico mandou. Tomei banhos quentes. E frios. Tomei atitudes. Passou o Carnaval. Chegou o Natal… Na frustração de quem sente que perdeu a ilusão do que achava de si, busquei – e sigo buscando – aceitar quem sou. O que é feliz me deixa muito feliz e a mesma lógica se aplica ao que é triste. Sei que a intenção pode ser a melhor, mas não basta me dizer para dar menos importância, que preciso parar de caçar problemas, ou coisas assim.

É um cabo de guerra constante entre o que sinto e o que gostaria de sentir… Estou tentado edificar pontes pra, quem sabe, diminuir essa distância. Aprendi a me despedir com a Vó Nenê e me mantive firme e lúcida. Assim, fui também me despedindo de quem eu me obrigava a ser, reconhecendo quem eu já sou. Do meu jeito, intenso e pensativo – aqui sem nenhuma pretensão! penso sobre questões complexas com a mesma prioridade e espontaneidade com que fico “pensando na morte da bezerra”, acompanhando o trabalho das formigas enquanto reflito se elas não consideram suas vidas chatas, se aquela folha não é pesada demais para aquele corpinho, se formigas tomam banho, se tem dentes e et cetera, ao passo que faço contas de adição e subtração usando os dedos e quase sempre erro.

Minha cabeça não desliga fácil, mas ainda bem que sou privilegiada e aprendi a ler e a escrever, nesse planeta cuja desigualdade é lei. Agora são três horas da manhã e posso dedicar minha energia às palavras. Eis que chegarei nos 30 virada do avesso. Igual quando a gente leva um baita caldo de uma onda, que deixa a gente sem biquíni, sem ar, que leva os óculos de sol e os chinelos pra longe. Que carrega a gente para o outro lado da praia, nos deixando com uma sede absurda e com aquela sensação maravilhosa de que todo mundo viu a cena patética e cômica que acabamos de protagonizar. Aí, a gente vai caminhando para a parte mais rasa, tentando desviar das crianças que brincam ali, enquanto se arruma o biquíni lotado de areia, na tentativa de abrir pelo menos um dos olhos – que ardem, em busca de algum rosto conhecido.

A gente encontra esse alguém e faz o quê? Ri da situação inesperada e desnecessária, já que poderíamos ter passado sem essa! Mas o que resta é contar tudo isso com humor, enquanto se exibe o joelho e o cotovelo ralados pela areia, resultados da super esfoliação natural que acabou de acontecer. Foi em 2018, especialmente, que aprendi a sentir o gosto da minha lágrima: salgada, como o mar. Aprendi a respeitar seu tempo quando precisou lavar meu peito. Mesmo ardendo. Mesmo ficando com o rosto inchado três dias, que aí já emendava com uma crise de rinite, fazendo de mim o exemplar mais belo dos mortais. Se nos encontramos por aí, era isso que se passava, tá?

Aproveito para agradecer todos que foram gentis comigo. E me desculpo com os vizinhos e demais seres vivos (humanos e bichinhos em especial) que me viram desse jeito no elevador, espirrando sem parar. Não era dengue viu, gente? Nem febre amarela, nem gripe. Era só minha humanidade, pura e desnuda. Trinta, você nem chegou direito e já foi revirando todos os meus tapetes – aparentemente sem minha permissão; me sacudindo igual aqueles brinquedos antigos de parque de diversão (e, aliás, até hoje não sei como pude me divertir nesses trecos barulhentos e pouco confiáveis).

Na sua chegança, você foi bagunçando cada canto de mim. No meio da corrida, fez a energia acabar. Fiquei ali no escuro, mas segui contando com a luz das pessoas ao meu redor. Pessoas já conhecidas e pessoas novas. Você veio me exigindo honestidade, impondo que olhasse pra dentro de mim com uma lupa e uma luz bem potente. Fotossíntese constante nesse jardim. E nada de rotas de fuga! Ultimamente, tenho andado acompanhada do martelinho e do pincel, para continuar as escavações dos meus sítios. Parece que é o jeito, né?

Acho que escrevi tudo isso pra finalmente me oferecer um pouquinho de colo. Uma estrelinha na lição de casa bem feita. Aquele beijinho na testa como recompensa de quem tentou. De quem resiste. Por continuar sorrindo e rindo de mim. Por seguir acreditando que a vida é boa e preciosa, apesar dos pesares. Apesar das dores, das injustiças. Dos desencontros, das despedidas. Das frustrações, das ilusões e do quanto ainda desconhecemos. Aproveito para me apresentar de novo a quem está lendo isso agora. Sobre aquele papo de melhor versão? Esquece isso. Deixa pra lá… Por ora, “vou mostrando como sou, vou sendo como posso (…), e participo sendo um mistério do planeta”. De repente – mas não tão de repente assim – trinta! E mais um Carnaval chegou.

– 30 anos, nos vemos oficialmente dia 14/03. Então, “té já”!
– Gratidão aos marujos pela disponibilidade em ler mais um textão dessa que vos fala, em plena segundona!

[Fonte imagem: Pinterest]

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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