Pessoalidades

Adeus ano velho

Faz um cafezinho ou um chá e senta, que lá vem textão!

Nos últimos dias, me foi possível desfrutar do sol, da natureza, do mar; de dormir até o sono acabar, de escolher o que comer, de estar com quem eu amo e com quem me ama de volta. Hoje, enquanto eu e Fe passeávamos a pé em pleno verão carioca, fiquei pensando muito no quanto, às vezes, tenho a sensação de “ter muito” e fazer “pouco” para o mundo – pensando que o mundo é imenso e que é preciso mais modéstia – me pergunto o que tenho feito pelos meus, ou para quem simplesmente está mais próximo, tipo meus vizinhos, os motoristas que sempre me levam pra lá e pra cá, as pessoas todas que encontro pela vida diariamente, no elevador, na espera da terapia…
E aí, entre as sombras do caminho e do sol quente pra chuchu, fui sendo acolhida por pensar no quanto tento me manter como alguém que transmite alegria e amorosidade, tanto ativamente, quanto de modo mais “passivo”; quando estou nos lugares e me coloco disponível; quando me dedico em demonstrar compreensão, quando quero que saibam que me importo, quando me esforço e tento me cuidar ao máximo para não julgar – o que quer que seja: a roupa, o cabelo, as atitudes, as escolhas, as excentricidades e tudo o que me soaria como “absurdo ou maluco”. E nada disso está pronto aqui. Segue inacabado. Não “nasci assim”, “iluminada”, “evoluída”, “desconstruída”. “Isso” é fruto de uma educação sólida e de um mergulho profundo em busca das minhas verdades e versões, em busca da minha humanidade, da minha própria loucura, dos meus absurdos. Da minha matusquelice. E dá-lhe terapia pra isso! E reflexão e diálogo e fala daqui e se desculpa dali e tenta outra vez… Porque a gente sempre pode escorregar em quem fomos. A transformação me parece lenta: passinhos de formiga, constantes, todos os dias.
Pelo menos hoje consegui me acolher… E é o que desejo para todos nós nesse 2020. Que sejamos compassivos e amorosos uns com os outros, mas também – e principalmente, com a gente mesmo. Acho que assim, o que fizermos para o outro será ainda mais genuíno e afetivo, e não só racional ou moral, porque é feio ou bonito, do bem ou do mal…
Desejo que saibamos olhar para nossa trajetória e ter condição de reconhecer bravura e coragem em cada passo dado; que possamos encontrar, dentro de nós, a generosidade, a humildade de nos reconhecermos humanos, falhos, frágeis, insensatos e incoerentes, no desafio de conseguir amar também o inacabado, o imperfeito, os desajustes… Se amar for muito, então pelo menos aceitar melhor… E que também saibamos reconhecer e pedir desculpas quando essas nuances de nós machucar alguém, quem quer que seja. Inevitavelmente, acabo sempre escrevendo muito sobre mim e pra mim. Talvez seja justamente por isso que escrevo… 2019 foi um ano intenso, de ânimos exaltados, de amizades estremecidas, um ano em que aparentemente nos autorizamos a botar “nossos monstros pra fora”, independente das consequências. Como tudo tem múltiplas interpretações, prefiro ficar com o entendimento de que tudo isso foi bom para reconhecer os meus. Aprender com o que é extremamente diferente. Exercitar minha intolerância. Perceber o que me é inadmissível e tentar lidar com isso. Também concluí a caminhada do mestrado, que na verdade vem representando o começo de um jeito de existir, de me manter saudável, produtiva, de continuar buscando os sentidos… E nesse caminho, parto para o segundo ano do doutorado. Se é dentro de nós que “o ano novo cochila e espera, desde sempre”, estou aqui tentando despertá-lo cuidadosamente, desejando muita coragem e força para encontrar todos os “ingredientes” da Receita do Ano Novo* primeiro dentro de mim. Desejo também a continuidade dos bons encontros que já fiz e sigo com boas expectativas sobre os que ainda virão. Agradeço profundamente todas as pessoas com as quais troquei em 2019, que fizeram minha existência mais bonita, mais qualificada, que me ajudaram a amadurecer, que me ensinaram a lidar com o diferente, com o sofrido, com o belo e também com horroroso o não tão belo assim. Gratidão 2019! 2020, as janelas já estão abertas. Acorda de mansinho e vem ver o sol entrar.
?Adendo: esqueci de acrescentar que a chuva também pode vir! – chegamos em terras paulistas: por aqui chove e tá até fresquinho. Também fiquei com vontade de dizer que ninguém está obrigado a ser “muito feliz em janeiro”, tá certo? E daí que é verão? As redes sociais estão e continuarão lotadas de fotografias lindas, de piscina, praia, bebidinhas, do sol e das férias. Vale lembrar que são apenas recortes das nossas vidas – assim como nessa foto que compartilhei, arrumei a postura e em seguida, relaxei um monte na cadeira – quase deitei! acomodando minha pancinha (que segue branquela) pra tomar uma aguinha de coco em paz. Então, quem não puder viajar, quem não estiver de férias e quem não estiver tão feliz assim, tudo bem também. A ideia é se acolher. Todos enfrentamos batalhas diárias e muitas são bastante árduas e duras. Cada um lida e luta a seu modo. Independente do “tranco”, sigamos vigilantes e gentis, com a gente e com o outro.
❣️ Muiiito obrigada por “darem bola” aos “meus” escritos e me encherem de carinho também por aqui.


*Receita de Ano Novo – texto de Carlos Drummond de Andrade

(http://www.jornaldepoesia.jor.br/drumm.html#receita)

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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