Pessoalidades

Crônica barata: uma história de aniversário

Bem, se tem um ser vivo capaz de unir as pessoas – especialmente aquelas que têm medo – este ser é a barata. Quando uma delas aparece, pronto! Sempre alguém grita e avisa, alguém corre, alguém pula, alguns julgam a cena – escandalosa e desnecessária – até que finalmente alguém resolve: no meu caso, resolver é matar e me mostrar o cadáver.

Gente, desculpa. Eu não tenho orgulho disso. Se a barata aparece em ambientes abertos, eu me conformo que alguém simplesmente a tire de perto de mim – claro que mantendo o compromisso de continuar me escoltando e garantindo que o serzinho não se aproxime de novo.

Mas, se estivermos em um local fechado, não tem jeito. Ou sou eu ou será ela. É tipo caso de vida ou morte – de vida minha e morte dela. Pensando nisso, essa crônica também pode ser sobre medo. Sim, porque medo precisa muito ser respeitado. Vejam bem: é claro que eu sei que uma barata não vai me matar, nem me envenenar, nem me morder/picar/bicar/beliscar, nem me dar um golpe de judô. Sei também que tenho uma estatura bem maior, que sou mais forte, que uso sapato – o que me permitiria pisar em cima caso eu tivesse essa coragem, que ela não tem ossos, enfim…

O fato é que só minha cabeça sabe disso. Meu medo não. E ele me ainda lembra sempre que tem algumas que vieram com um elemento a mais de fábrica: asas – um dia ainda quero falar sobre isso com Deus. E que também tem antenas que se movimentam. E tem umas duzentas e setenta e nove patas. E que são marrons e brilhantes, e que podem ser do tamanho de um hipopótamo e, dependendo do susto, até de um dinossauro. A diferença é que os dinossauros já foram extintos.

Bom, mas voltando aos fatos, basta que eu me encontre com essa coisinha que pronto: reação de luta e fuga na hora! Claro que no meu caso a reação é de fuga. Run, Ana, run! E tenho que agir rápido, caso contrário, o máximo que consigo é ficar encarando a barata para que ela não fuja, mas não consigo matar. Fico tipo com piripaque do Chaves. Depois, quando alguém me socorre, essa pessoa vira minha “melhor amiga” por pelo menos uns dois meses e com certeza terá minha gratidão eterna. Tenho um bloquinho de notas no coração que não me deixa esquecer as pessoas que já me salvaram.

O que estou querendo dizer, então, é que nem sempre o medo é racional. Claro que existem medos muito maiores, relacionados, inclusive, a eventos extremamente traumáticos. Mas, nem sempre o medo faz sentido aos olhos alheios. Então, nos resta tentar ajudar e respeitar, né?

Bom, depois dessa confissão pública, quero te fazer um convite. Imagine a cena: você, num barzinho bacanudo, comemorando seu aniversário. Aí você pede umas bebidinhas especiais, escolhe cuidadosamente o que deseja aperitivar quando, de repente e não mais que de repente, sente uma cócega. Não. Bem da verdade, você sente uma coisinha, andando assim, meio que perto do pescoço. Farei aqui uma pausa para atentar a um pequeno e importante detalhe desta crônica: é totalmente baseada em fatos reais.

Tinha caído uma chuvinha por aqui, “são as águas de março fechando o verão”, né? Então também estava calor. Outro fato importante: enquanto olhava o cardápio, reparei que o mocinho que estava auxiliando as pessoas na porta do bar, chutou uma barata. E depois, mais umas duas. Porque sim, quem tem medo de qualquer coisa, enxerga essa coisa como ninguém! Pelo menos comigo é assim. E não! Não venha me dizer que é imaginação porque o Felipe estava junto e viu com os próprios olhos dele. E ah! Eu faço terapia e até agora não recebi nenhum diagnóstico de alucinação, delírio ou alteração de pensamento. Ou seja: quando eu vejo é porque realmente a coisinha está ali. Sim, meus Queridos, foi isso mesmo que aconteceu! Isso aí que estão supondo.

Aconteceu o acontecido.

Já estava pedindo a sobremesa quando de repente senti/vi/morri uma barata passeando na minha bata colorida preferida – aniversário é especial né? Mais do que depressa, levantei! Como que por um milagre, não saiu nenhum gritinho das profundezas do meu pulmão. Fiquei pulando alguns milésimos de segundo. Eis que me atento: tinha uma moça sentada bem pertinho de mim. Batata! A barata foi então passear nela. Ainda fora de mim, interrompi a paquera que estava rolando e disse: “amiga, você tem medo de barata?”.

Vou contar pra vocês: era uma moça loira, que estava super produzida, até de cílios postiços. Ao me acomodar pensei: “poxa, deveria me arrumar mais para sair, principalmente em ocasiões especiais; ela está tão bonita. O que será que ela faz da vida? Será que ela é atriz?” até ser “interrompida” com uma pergunta do Felipe. Deixei o pensamento pra lá e me acolhi. Fazer anos também é bom. No fim, acabei lembrando que eu morro de preguiça de tirar o rímel pra ir dormir e pedi meu drinque.

Voltando à cena do passeio da barata, depois que falei isso, a moça saiu batendo os pés no chão, igualzinho a mim. Mais do que depressa nos abraçamos. Isso mesmo. Abracei e fui abraçada pela moça loira bonita que estava tendo um encontro amoroso. Juro que só ouvi um pouquinho da conversa. Vai falar que vocês também não fazem isso, vai!?

Enquanto estávamos abraçadas, um garçom estava passando e pronto: assassinou ali na nossa frente a responsável por toda a movimentação desnecessária. Ficamos amigas, trocamos telefone… Mentira! Não foi assim não… Até poderia ter sido, mas susto de barata demora pra passar. Felipe queria só mudar de lugar comigo. Óbvio que escolhi uma mesa bem longe da porta, assim como a moça bonita, minha breve companheira de aventura.

Lembro de ver seu acompanhante rindo muito da situação e reproduzindo minha fala: “amiga, você tem medo de barata? Porque tem uma na sua calça”. Fazer o que né? Assoprei a velinha que veio junto da sobremesa, com o Felipe fazendo carinho na minha mão e me olhando com compaixão – ele sabe bem que não é brincadeira o meu medo.

Ainda não tinha dado meia noite, então era dia 14, logo, meu aniversário. Fiquei com medo e acho que ainda estou de que esta barata tenha anunciado o início dos meus 28 anos. Felipe disse que não, que barata não anuncia nada porque, aliás, ela não pensa em nada. Decidi aceitar a teoria dele e terminar a sobremesa.

Agradeci mentalmente todo o carinho e energia recebidos neste dia, por vários meios – telefone, redes sociais, abraços e presentinhos. E, finalmente, chegamos ao fim desta crônica barata sobre baratas. Agradeço quem conseguiu ler até o final. Agradeço também quem respeita os medos esquisitos das pessoas, as crenças, as teorias e as novas idades.

Agradeço todos os meus amigos, familiares e ao Felipe que me fizeram sentir tanto carinho! Que meus vinte e oito anos sejam de bons encontros, bons drinques, de abraços e boas risadas. Ah, e claro: se possível, sem baratas!

[Fonte imagem: Pinterest]
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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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