Pessoalidades

Até um dia, Vó

Fico pensando em qual estrela a senhora foi morar. Me recordo com nitidez da sua pele clarinha, das suas bochechas rosadinhas no frio. Daquele seu pulôver cinza, de tricô, que deixava o seu abraço ainda mais aconchegante e acolhedor. Lembro também da leveza do toque das suas mãos, macias, firmes e dispostas. Da força dos seus braços e do seu corpo gorduchinho, mexendo o doce no fogo, no tacho de cobre que era maior que a senhora. Sua voz que atendia ao telefone tão baixinho e ia ficando mais alta e forte…

E nas festas? Sua alegria contagiante, de olho nas comidinhas que estavam sendo servidas, querendo saber se eram mesmo saborosas. Seus pratos deliciosos, suas receitas, algumas criadas por você. Tenho aqui no meu armário uns potes e sei que a senhora sabia exatamente quais eu nunca devolvi.

Lembro da sua disposição, daquela sua touquinha e o seu avental, andando de um lado para o outro entre a cozinha e o fogão lá de fora. Do sol batendo nas roupas que secavam no varal e daqueles passarinhos que sempre entravam pela janela à procura de algum farelinho. A senhora sempre falava com eles.

A cada visita, alguma coisa escondidinha na geladeira, a espera do neto preferido. Bolachinha de nata, de goiabada, brigadeiro, doce de leite, de figo, arroz doce… Torta de frango, pão de queijo, empadinha, macarronada. O velho e bom arroz com feijão.

Vó, nunca tinha experimentado uma saudade tão profunda e intensa. Chego a sentir saudade dos utensílios da sua cozinha, como se todos eles também fossem você. Acho que são. Esse seu fazer sempre foi o jeito de demonstrar e transmitir todo seu amor por nós. Esses dias no mercado, quando estava escolhendo um sabonete, senti o cheirinho de erva doce e me perdi.

Parecia que estava na sua casa, sentada ao seu lado no sofá, sentindo seu perfume fresco de banho tomado, comentando sobre a cor bonita do seu esmalte, enquanto a luz do sol da tarde entrava pela porta da sala, acompanhada de uma brisa gostosa. E eu te contando da minha vida aqui em São Paulo, do meu trabalho, dos meus planos… Visitas que começavam na sala e sempre, sempre continuavam na cozinha. Nem que fosse para um café na suas xícaras floridas, com um pedacinho de queijo ou um pão caseiro.

Os últimos presentes que me deu foram panos de pratos. Sempre atenta, no Natal me ouviu falar que estava precisando e tratou de encomendar. Eu estava de ressaca e fiquei deitada lá no seu quarto, junto dos meus irmãos e primos. Todos nós, envolta da senhora. Os panos são tão lindos e coloridos… Eu chorei quando minha mãe me entregou. Chorei de gratidão por ter a senhora.

Quando liguei pra agradecer, a recomendação expressa: “são bonitos, mas é para usar! Não tem nada que ficar guardando! Se não usar, amarela do mesmo jeito!” e eu prometi que assim faria. Sempre tão moderna e consciente, me apoiou a voltar a estudar, a mudar aquilo que já não estava me fazendo feliz, dizendo que a vida era mesmo de luta.

Às vezes, te encontrava meio brava e ria do seu jeitinho. A senhora me deixava rir e acabava rindo comigo… Sempre ficávamos de mãos dadas. Na despedida, mais um abraço, marmitinhas que a senhora ajudava a carregar, apoiando-as no muro. Ficava no portãozinho até que o carro sumisse por completo e virasse a esquina. Eu sempre te via pelo retrovisor e te achava tão linda! E sua audição? Aí de quem falasse qualquer coisa. Se a intenção era falar para que a senhora não ouvisse, aí sim que ouvia tudo.

Sua lucidez, sua justiça, sua generosidade e sua coragem estão em tudo e em todos nós. Sua caridade, sua preocupação com quem estava na companhia pedindo por comida. As ligações que quando chegavam ao fim eram acompanhadas da pergunta: “já sabe qual a próxima vez que vai voltar, filha?”. Vou voltar sempre Vó. Porque eu nunca fui. E eu nunca vou. A senhora mora aqui dentro. Te carrego comigo e vou sempre te homenagear, a cada passo que eu der.

Te desejo a paz e a serenidade da missão cumprida. Me orgulho da sua luta e da sua força de vida. Da sua vontade e também da sua fé. Que eu possa, Vó, ser como a senhora. Minha Mãe sempre me disse parecida com você, que nossos cabelos eram iguais, nossa pele e também nossa braveza.

Que Deus me permita, na caminhada do viver, me parecer mais e mais. Sempre te dizia Vovó princesa, linda e maravilhosa, que ria de mim, meio envergonhadinha. Uma mulher Querida e muito, muito amada. Vó, a senhora me ensinou a acreditar mais, reforçando a importância e a força que uma família tem. Costurou com a linha da fé a nossa união. Nos encorajou com sua luta.

Receba todo meu amor e gratidão. Agradeço também pela infância maravilhosa na sua casinha, comendo hortelã e pastelzinho sem recheio. Carrego a certeza da sustentação do seu Amor. Até um dia…

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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