Pessoalidades

Nós

Mais de quatro mil dias. Me achei boba fazendo essa conta, mas depois me assustei. O tempo passa, inevitavelmente. Parece que nem vi. E parece que vi e vivi intensamente, que lembro de exatamente tudo até aqui. Senti um amor profundo. Senti dores e toda paixão. Senti medo e solidão. Me deixei levar. E me trouxe de volta, mais consciente e forte. Me despi de mim para ser o novo do que penso e sinto. Mudei os cabelos, mudei de trabalho, marquei minha pele de você e assinei papéis com seu nome. Fizemos de uma cama no chão nosso lar e ali temos sonhado os sonhos do mundo.

Faz tempo que você mora aqui. Faz tempo que me ajuda nessa construção diária de mim, do que fomos e somos. Da compreensão e tolerância no seu sentido mais profundo de entrega e paciência. O que dói em você, dói em mim quase que do mesmo jeito. E pode ser bastante intenso/denso/louco e lindo ter mais de um coração pra cuidar.

Nesse tempo, aprendo a ler todos os dias. Ler uma mesma situação de outro jeito. Ler você, suas expressões e silêncio. Ler a mim nessa história e reler com compaixão e amorosidade os encontros, desencontros, distanciamentos e proximidade. A intimidade é curiosa e meio estranha. Me aquieto quando não consigo compreender. Ou peço sua ajuda. E você acolhe, desde sempre. Às vezes acho graça, às vezes corro, mas sempre penso “ainda bem que nos encontramos”. Que fizemos de você e de mim “nós”, “a gente”. Nossa casa, nossa família, nossos amigos…

A cozinha é mais sua do que minha. A máquina de café tem sido nossa igual. O edredom velhinho que era seu, agora é só meu – mas você pode usar quando eu não estiver em casa. O braço do sofá que tem apoio de copo, a gente reveza. Os carregadores também. O vídeo game era só seu e as pimentas dos temperos do armário da cozinha são só suas. Os chocolates e docinhos são meus. E assim vai. Assim temos ido e assim vamos. Continuamos.

Eu amo a gente. Amo os dias 06 e 07 de todos os meses. Amo os dias 15 de janeiro e 20 de maio. Amo que seu abraço é sempre quentinho. Amo que me faz carinho quando acorda. Gosto médio quando me assusta, mas amo que a gente ri disso depois. Amo quando canta como se estivesse sozinho. Amo nossos pijamas velhos e rasgados – que antes eram “roupas de sair”. Amo assistir qualquer coisa com você, mesmo quando durmo na metade. Amo quando me conta das coisas que viu e sobre o que pensou daquilo – mesmo quando tenho que ficar fazendo entrevista pra você me contar tudo.

Gosto médio quando diz que “já tá bom de dormir”, mas amo que deseja minha companhia. Amo que acorda bem humorado. Gosto menos que médio do seu despertador tocando o modo soneca noventa e sete vezes. Amo nossos beijos e palavras antes de dormir, às vezes um pedido de desculpas, sempre um “dorme bem, até amanhã” ou “se precisar de alguma coisa, pode me acordar”. Gosto médio quando não usa chinelo nos dias frios e que dorme sem camiseta. Mas amo te cobrir até você dizer que está ficando “caloreira”…

Amo que a primeira pessoa que encontro todos os dias é você. Que assim seja e permaneça por mais quatro mil e tantos dias.

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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