Cotidiano

Sobre televisão e saudade…

Olha só quem voltou?
Isso mesmo: euzinha! Quer dizer, na verdade, as palavras que saem da minha cabeça, que se amontoam numa lógica particular – que muito vaidosamente chamo de “escritos” é que voltaram! Ufa! Ficou meio confuso, né? Mas acho que é isso mesmo. E, bom, vocês entenderam que o que quis dizer é que escrevi umas coisas e que vou compartilhar aqui, certo? Certo. Então vamos lá! Mas antes de começar a contar essa história, quero fazer uma pergunta: a mãe de vocês também telefona para “encomendar” textos?

Porque a minha sim. Ela sempre diz que “sou boa em escrever histórias”. Mãe é mãe, né? São coruuuujas. Meu pai também é coruja. Ou seria corujo? Enfim… Acho que já contei isso, mas ele guarda minhas redações do cursinho pré-vestibular até hoje. Não faço a menor ideia do que tá escrito naqueles papéis, certamente com assuntos “passíveis de cair no ENEM”. É fofinho que ainda estejam guardadas com ele, não é?

Mas vai, vamos ao que interessa. Estava voltando da academia – mas olha, não quero que me admirem por isso, viu? Gostaria de ter e fazer um discurso super consciente sobre ser adulta, amar meu corpo, a vida, o planeta, a existência de todos os seres; sobre adorar acordar cedo e perceber, enquanto os raios do sol iluminam a academia, o quanto meu corpo responde aos estímulos e aos desafios dos exercícios. Que poético! Que bonito. Mas a verdade não é essa não. Não mesmo, infelizmente. Até porque, consigo sentir tudo isso perfeitamente quando como brigadeiro, por exemplo, e sem precisar fazer força/esforço nenhum. Pra academia eu vou por pura obrigação mesmo…

Mas tá. Retomando a história: estava voltando da academia, quando recebo a seguinte mensagem no WhatsApp – pera! abre parênteses: minha mãe é bem moderninha e tem até Twitter. E não é só ter, tipo, “ah, legal, ela tem um perfil”, que tá lá há trezentos e vinte e três dias sem nenhuma interação. É ter e ser ativa nas redes, entendeu? Ela fica indignada, se informa e etc. e tal. Inclusive, fico no pé dela, tentando convencê-la a deixar de consumir as notícias ruins e de não se afetar tanto, principalmente pelas infames e desnecessárias “fake news”. Cadê toda aquela marotice e experiência de vida que nossos pais usavam para nos alertar sobre não falar com estranhos? Pra não aceitarmos nada, nenhuma balinha sequer, de pessoas desconhecidas? Que não podíamos acreditar em tudo o que diziam por aí, e que nós não éramos/somos todo mundo? Sem contar a parte de não beber nada no copo de estranhos, para não acordar sem um dos rins numa banheira de gelo…

Brincadeirinhas à parte, fecha o parênteses e volta para a mensagem de minha mãe, que perguntava: “filha, tá ocupada?”. Respondi que poderíamos falar, então ela enviou um áudio com a promessa de me contar uma história assim que chegasse em casa. Fiquei só um pouquinho curiosa, né? Imaginando mil coisas! Passados alguns minutos – graças a Deus minha mãe sabe bem a filha que tem e não demorou nada para me ligar! – o celular tocou e, tomando um café quentinho, tratei de encontrar uma posição confortável no sofá para ouví-la.

Então, é isso, minha gente: preparem seus cafés ou chazinhos e sentem-se com aconchego, que lá vem textão! A continuação dele, na verdade. Bom, minha mãe, a quem chamo carinhosamente de Gor – dentre outros – foi ao banco tomar chá de cadeira tentar resolver umas coisinhas da vida adulta e, na espera por ser atendida, percebeu o diálogo de dois homens mais velhos.

E é essa história que vou tentar contar. Investiguei através da Gor os vários detalhes, que me foram descritos com muita riqueza, para nossa alegria. Eram dois senhores na fila do banco; um deles mantinha-se na fila, porém encostado na parede. O outro estava ligeiramente virado, para manterem o contato visual. Não eram carecuxos e nem usavam óculos. Como ótima expectadora e espectadora que é (que somos, isso deve ser de família), Gor começou a prestar (bastante) atenção na prosa deles.

Um de 81 anos e outro com 79. Segundo informações colhidas/ouvidas/roubadas/emprestadas eles trabalharam juntos. Também jogaram bola juntos, inclusive, não passava uma bola no gol quando o senhor de 81 anos era goleiro, viu? Garboso e num tom saudoso, ele se riu, dizendo nem bola de gude jogar mais… Nessa conversa afetiva e repleta de memórias vívidas, comentaram sobre os outros membros do time, concluindo que “a maioria já se foi”. Ficou só o fulano que é daqui e aquele outro, que mora em Casa Branca. E também o beltrano, que deve estar na cidade tal… Então, o senhor de 81 comenta com o de 79 que ficou sabendo da perda que o amigo vivera somente após seis dias do falecimento de sua esposa. O de 79, como quem compreende o amigo, comenta que já fazia três meses. Diz da falta que está sentido…

Era possível enxergar o mar invadindo seus olhos, sem a menor cerimônia. Sabe, ela queria uma televisão nova e eu não comprei. Dia desses, sonhei com ela, me perguntando sobre a tevê. Fui na loja e comprei uma novinha. Agora está lá em casa, na caixa… O de 81 pergunta se o amigo tem filhos e netos, ao que o de 79 responde que sim, “estão sempre por lá”. Ah então! Eles vão aproveitar a televisão nova! O de 79 concorda… E completa dizendo que quem queria mesmo o aparelho novo era a esposa, né? Eles sempre estão lá, graças a Deus, mas a falta que sinto é dela.

Podia-se notar até em suas roupas a ausência da esposa. Esse senhor, o de 79 anos, vestia calças e camisa de meia manga claramente limpas, mas tanto a calça social quanto a camisa estavam com aquelas marquinhas de sabão em pó. Sabe quando a gente lava tudo na máquina e não dissolve o sabão na água, antes de pôr nas roupas? Então, parecia ser isso.

Eu até imaginei a mulher dele, lá do céu, vendo o marido lavar as roupas sociais e mais o tapete, os panos de prato, as meias e toalhas de banho tudo junto, sem dissolver o sabão em pó antes da máquina começar a trabalhar. Enquanto ele falava dela, as lágrimas escorriam pelo rosto. Espontâneas e encorpadas. Robustas e livres. Salgadas, como o mar. Era a dor.

Penso que nem se quisesse muito conseguiria impedi-las. Mas, acho mesmo é que ele nem quis…

O de 81 então comenta que sua mulher partiu há mais de nove anos. E que é assim mesmo. Porque essa falta não passa… Uma mulher, também aguardando sua vez na fila, comenta ser cuidadora de seu marido, que tem 73 anos e desenvolveu doença de Alzheimer. Imagino eu que tenham trocado aqueles olhares silentes e gentis.

Olhares de compreensão genuína, autobiográficos, sabe?

Em seguida, o de 81 anos afirma não precisar usar nenhum remédio, dizendo também não ter problemas de saúde, exceto as dores nas costas, justificando assim sua necessidade de manter-se encostado enquanto aguardava sua vez. O amigo de 79, na sequência, comenta estar com “tremura” e estica levemente os braços: mostrando as mãos, explica que precisou entrar na fila, pois não conseguiu apertar direito os números do caixa eletrônico, é, aqueles que ficam lá fora.

Retomando o assunto, o de 81 anos comenta que sua esposa se comunica com ele. Quando acontece, ele sente como “um tremor nos olhos”. Então, o amigo de 79, num tom de quem parece chegar a uma conclusão diz: “acho que a minha já deve tá comunicando comigo, então… É falar nela, que as lágrimas caem”.

É aqui que essa história termina. Sei que pode parecer sem fim, porque normalmente me encarrego de fazer uma “conclusão” das histórias que escrevo. Como se quisesse acolher com um abraço “palavrístico”, as pessoas que leram, que sentiram cada letrinha, cada ponto e vírgula. Quem porventura se emocionou, quem se conectou com lembranças e experiências pessoais, até mesmo com alguma dor.

Mas, dessa vez, o fim é livre.

E ele é todo seu.

Entrego para cada um a continuação e elaboração desse desfecho, assumindo o risco de inclusive causar um certo incômodo. Talvez aquele “apertinho” no peito. Se isso acontecer, quero lembrar que “esse apertinho” tem nome: empatia. Mais que simpatia, talvez seja umas das mais importantes e nobres missões dos escritos.

Retratei com palavras um diálogo real, advindo de uma cena comum e corriqueira do cotidiano: pessoas desconhecidas de mim e conhecidas entre si, na fila de um banco qualquer, num dia qualquer, em um canto qualquer desse mundo.

Agradeço todos que chegaram até aqui, e também à Gor, minha mãe, que se deixou afetar e pôde compartilhar comigo – conosco – o diálogo de uma cena “qualquer”, sobre uma conversa “qualquer”, entre pessoas desconhecidas, num canto “qualquer”, num dia “qualquer” de dois mil e vinte.

1

Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.