Cotidiano

Vai ter protesto feminino sim!

Após chegar em casa, depois de uma sexta-feira intensa e feliz, comi qualquer coisinha e sem planejar, peguei no sono. Acordei umas duas horas depois e uma amiga muito Querida me chamou, ao que iniciamos uma boa conversa pelo WhatsApp. Papo vai, papo vem, entre uma amenidade e outra, engajamos numa conversa mais densa e reflexiva. Contava a ela que, por motivos de rotina, estava fazendo infinitos exames para novo acompanhamento nas terras de Piratininga, já que agora cá estou.

Dentre outras renúncias – inerentes à minha escolha – também precisei me despedir da ginecologista que me cuidou desde bem menina até aqui. Tipo, por dez, doze anos. Sabe aquela coisa familiar? Ela atendeu minha Mãe, conhece minha Avó, sabe onde meus pais moram, frequenta lugares comuns – encontrar no mercado era batata! – seus filhos estudaram na mesma escola que eu e, inclusive, o Pai dela foi meu pediatra – o mais Querido de todos. Enfim, ao me mudar para a Paulicéia, também tive que abrir mão dessas delícias que o interior permite e preserva.

Às vezes, essa proximidade em outros departamentos da vida gera confusões, porque aí todo mundo se conhece – ou acha que sim – dando margem para, de repente, comentarem algo sobre você ou sobre sua vida/escolhas, como se fosse seu íntimo, de longa data, enquanto que, na verdade, você simplesmente encontra a pessoa com certa frequência, mas na fila da padaria ou no salão de beleza. Ainda assim, considero essa proximidade mais amistosa e positiva do que o contrário, mesmo com os buchichos e fofoquinhas que às vezes aparecem – e que inclusive, também já me vi fazendo.

Então, pela necessidade de iniciar novo acompanhamento, fui submetida a uma série de exames – uns nomes meio feios e procedimentos até então desconhecidos por mim. Beleza, né? Já que foram recomendações, vamos seguir! Agendei os exames e na data e hora marcadas, lá estava eu, com minha malha de lãzinha – fazia um dia chuvoso por essas bandas. Fui atendida na hora e, durante a breve espera na recepção, observei que a esmagadora maioria eram mulheres. Fiquei até provocada: será que só mulher adoece? Será que só mulher faz exames? Cadê os meninos, os homens?

Recebi um milhão trezentos e cinquenta e quarenta e noventa e trinta mil orientações: dirija-se até o primeiro andar, colete isso e isso, depois desça e pegue tal documento, aí volte para o segundo e faça aquele outro exame. Aí, você assina os termos, confere seu nome nas etiquetas, retorna para o primeiro andar e depois talvez seja necessário passar novamente pela recepção. Então, é só tomar um café, por estar em jejum, e você estará liberada. Pensei comigo: “será que decorei tudo?”. Juro, comecei a sentir muita falta da minha mãe – que sempre me acompanhou nestas consultas – puro zelo: Gor, obrigada também por isso.

Já que estava sozinha mesmo, o jeito era seguir adiante. Pensava, para me encorajar: “já sou adulta”. Ninguém conhecido, poucos olhares amistosos e afetivos: “Ana, que frescura. São só exames de rotina, vai! Você também não precisa ter uma pessoa conhecida ou que lhe seja familiar em cada esquina”. Assim, tentava me acolher – só depois me dei conta da dureza com que estava tratando a mim mesma. E isso também me doeu. Acho que estava pressentindo que iria me sentir invadida, que sentiria vontade de chorar nos minutos seguintes.

Dentre os zilhões de exames, passei por um procedimento bem chatinho e quem me atendeu foi um médico. Ele me recebeu com um cumprimento de mãos e me perguntou se já havia feito aquele exame. Sorri, dizendo que não. Brincando, ele disse que assim seria melhor, pois não perderia a surpresa de me mostrar que não era nada demais. Durante o procedimento, já deitada, ele me perguntou o porquê de estar fazendo aquele exame e expliquei que era rotina, em função de novo acompanhamento.

Nesse papo, descobrimos que ele conhecia a cidade dos meus pais, aí ele ficou ainda mais falante e entusiasmado, comentando do que já tinha vivido por lá. Até aí, estava achando ele engraçado, meio maluco – quem me conhece sabe que acho pessoas assim divertidas e interessantes. Conforme ia me contando suas peraltices da adolescência, ele “batia” na minha perna, dava uns “tapinhas”. Sabe quando a gente está conversando com alguém de forma mais descontraída e toca na pessoa, dando um tapa leve? Tipo, “mas menina, cê não sabe”?

Sei lá porquê fazemos isso e conheço muita gente que tem essa “mania”. Acho que ele sequer imagina o quanto aquilo me invadiu. A primeira vez que ele “bateu” na minha perna, eu assustei e dei um “pulinho”. [Gente vamos à cena: estava nua da cintura pra baixo, em posição ginecológica, com o sujeito dando tapinhas na parte interna da minha perna, tipo do lado de dentro da coxa, perto do bumbum].

E assim foi até finalizar o exame, que não levou mais que dez minutos. O tempo todo uma auxiliar acompanhou os procedimentos. Me troquei, engoli um café no laboratório para quebrar o jejum e voltei pra casa. Estava péssima. Morrendo de vontade de chorar. Mas não saiu. Ficou preso… E eu não estava entendendo nada, até então.

Não tinha sentido dor, nada de grave me foi dito sobre os exames de imagem. E também não era pela falta que senti da minha mãe – sou um pouco manhosa, admito, mas isso tudo não era saudade. Eu estava triste. E não sabia o porquê. Demorei a entender. Demorei exatos dois dias. Por favor. Não quero e nem consigo agora disparar uma discussão sobre as questões de gênero, nem sobre a conduta dele – reconheço a importância e legitimidade do assunto, porém quero poder deixar isso para depois, porque na minha escrita de agora precisa caber um pedido de desculpas.

E eu realmente desejo que isso, nesse momento, seja o principal. Preciso também fazer uma observação: pensei muito se ia mesmo escrever sobre isso e, principalmente, compartilhar. Se você está aqui, lendo esse texto, é porque algo aqui dentro quis gritar depois do choro entalado. Decidi fazer um escândalo, só que mais calculado – à minha maneira (meio frouxa) talvez?

Sei que não aconteceu nada de grave ou absurdo, mas tudo o que senti me fez experimentar na pele – no MEU CORPO, um pouquinho do muito que as MULHERES VIVEM DIARIAMENTE. Me fez PENSAR e REFLETIR na complexidade que tudo isso representa, para todas nós. Isso porque meu contexto foi totalmente protegido: estava numa clínica particular, ciente de todos os procedimentos pelos quais iria passar, estava lá por decisão e entendimento próprios.

Não senti dor, não senti medo, recebi as orientações e fui informada de tudo o que iria ocorrer, consentindo cada movimento e caminhando com minhas próprias pernas. Ainda assim me senti profundamente invadida. Me senti exposta, me senti vulnerável e impotente, me vi paralisada. E por que desejo e preciso me desculpar?

Porque só depois de ter sentido em mim é que pude, realmente, dimensionar o que muitas de nós estamos vivendo, todos os dias, há muitos e muitos anos. Precisei viver isso para o tempo da compreensão chegar para mim. Para o tempo da empatia genuína, que não é teórica nem retórica. Para o tempo dessa maturidade.

Pude pensar no INFERNO que é sentir-se invadida. No CAOS que se instala e que, muitas vezes, PARALISA, gera IMOBILIDADE e CALA o grito, o choro e a denúncia. Vergonha, medo, exposição, DOR, tudo isso de uma vez só. Pensei em tudo que já li, nos relatos, notícias, textos. Chorei por nós. Me cobrei… Por isso, me desculpo com toda a lucidez que essa vivência me fez experimentar.

Vai ter escândalo SIM, vai ter protesto SIM, vai ter o que for preciso para que todos compreendam que quem DETERMINA o limite tem que ser o dono do corpo, quem mora nele; que não é não e sim é sim, mas que pode virar não se aquilo deixa de ser bom. Por acaso, mas não por besteira, vivi isso um dia após a comemoração do Dia Internacional das Mulheres.

Desse dia em diante e principalmente aqui e agora eu me comprometo: não vou mais fechar os olhos ou me calar. Vou me manter indignada! Só uma mulher sabe o pavor que é estar no metrô e ter um homem atrás dela. Só uma mulher sabe o medo que dá. O alívio é imediato quando é uma mulher que está por perto e não um homem. E olha que essa situação é bem leve e “bobinha” frente a tudo que pode acontecer e ACONTECE de pior. Nós estamos morrendo.

Deixo registrada aqui toda minha real e genuína solidariedade e apoio aos “escândalos” e debates cada vez mais urgentes e necessários. Aproveito para expressar também meus sentimentos de compaixão e dor pelo falecimento assassinato de uma jovem estudante em Brasília, que perdeu a vida como num piscar de olhos. O responsável? Seu ex-namorado. “Isso” tem nome: feminicídio. Vai ter escândalo sim! Vai ter movimento sim, vai ter conversa sim! Cada vez mais! E os incomodados que mudem a si mesmos.

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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