Cotidiano

Lasciate ogni speranza voi ch’entrate: a morte não negocia

As pessoas estão morrendo há meses. Até aí normal. Todo dia nasce gente. Todo dia morre gente. O fim é certo e virá, e a gente sabe disso. Concordo. Isso é um fato e, contra fatos – sabemos (ainda sabemos?) não há argumentos. Mas repara uma coisa, a cada novo dia, mais esse vírus se aproxima da sua e da minha realidade. Da nossa, né? A cada dia que passa, está mais perto de quem você conhece.

No mês passado, foi o tio-avô do vizinho do seu primo que pegou. Morreu em dois dias. Mas ele era idoso… E uma hora ou outra ia morrer, pelo motivo que fosse. Nesse caso, foi por Covid-19. Fazer o quê. Faz parte. Os familiares e amigos nem puderam se despedir dele, mas é isso. Era velho já… Com certeza cumpriu sua missão e foi em paz. Amém.

Aí, no comecinho desse mês, a enfermeira do hospital, sabe aquele que você já precisou usar, pertinho da sua casa? Então, esse mesmo. É, ela morreu. E nem era idosa, cê viu? Mas, ossos do ofício… Estava exposta, infelizmente é isso, acontece. Faz parte da escolha profissional dela correr esse risco. Inclusive, recebia adicional de insalubridade… Morreu trabalhando, nobre né? A família também não pôde dizer adeus. Foi rápido e certeiro: teve sintomas em um dia, dali dois já estava na UTI, precisou ser entubada e morreu. Simples assim. De uma hora pra outra. Deixou o moleque em casa, prometendo que fariam a tarefa da escola quando chegasse. Só que hoje ela não vai voltar… Pela primeira vez na vida, uma promessa que fez para seu filho não será cumprida, ficará sem resposta. Seu coração bateu pela última vez e ninguém que amava pôde ouvir. Porque a morte não negocia.

Você consegue perceber que os mortos (agora corpos, ou melhor, cinzas) sem nomes conhecidos parecem não mobilizar nossos afetos? Mas e se agora os corpos começarem a ter nomes? Nomes que eu, que você conhece? Escritos em português? Em brasileiro? Nomes que você já pronunciou? Nomes de rostos que você já viu. Não na televisão, em revista… São histórias que já cruzaram mesmo com a sua. No ônibus, no mercado, no bar… Na rua da sua casa, vizinho do seu vizinho, seu quase vizinho também. Isso! Sabe aquele? Também tá na UTI. E olha, nem velho ele é. Não trabalhava em serviço de saúde, não fazia parte do “grupo de risco”. Sim, trabalhava e fazia. Verbos agora no passado. Enquanto eu terminava de escrever essa frase, ele morreu. Sozinho, sem se despedir. Mais um coração que pára de bater sem sequer uma voz familiar por perto, um mísero toque familiar. E vai ser caixão fechado. Sem negociação com a morte, lembra?

Fique em casa. O café ainda estava na mesa e a moça da televisão falava sobre a previsão do tempo. Ia chover. Mas absolutamente nada disso importa mais. Morreu. Fim. Silêncio eterno… Não subestime a força desse vírus. Se não por você, pelos seus. Não há escudos ou armas para vencer essa batalha, além da estratégia atual, que é científica: isolamento. Não, nem mesmo seu histórico de atleta, sua fé, crença ou sua teoria são páreo para a Covid-19. Ao contrário da religião, a ciência não depende da sua opinião e continuará existindo quando seu CPF for cancelado: fique em casa.


*Nota de 14 de julho de 2020

Comecei a ler “O amor nos tempos do cólera” (Gabriel García Márquez), um romance realista publicado em 1985. Dos tantos trechos que parecem descrever o Brasil de 2020, compartilho:

“Os pobres iam para o cemitério colonial, numa colina ventosa separada da cidade por um canal de águas áridas, cuja ponte de argamassa tinha uma marquise com um letreiro esculpido por ordem de algum prefeito clarividente: Lasciate ogni speranza voi ch’entrate. Nas duas primeiras semanas do cólera o cemitério transbordou, e não ficou um único lugar nas igrejas, apesar de haverem passado ao ossuário comum os restos carcomidos de numerosos próceres sem nome.”

 

1

Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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