Cotidiano

Rainha de mim

Não sou rainha da Inglaterra, mas sou rainha de mim pelo menos né, minha gente? Rainha do meu guarda-roupa, com certeza! E nunca gostei de rosa. Na infância, tive poucas roupas e brinquedos dessa cor. Das minhas preferidas, uma delas é azul. E preto. Branco também… Mas cor de rosa, não. Inclusive quando bem menina, meu Pai me trouxe de uma viagem um vestidinho branco, com flores azuis marinho. Era um vestido levinho, de algodão, sem manguinhas. Eu AMAVA. Usei até não servir mais. E usava pra brincar, pra viver minha vidinha de criança do interior que brincava na rua. Sou a única menina dentre três filhos e, honestamente, não me lembro muito desse diálogo segregador. O que tinha era uma conversa que pretendia nos educar para respeitar as diferenças de cada um, as preferências. Eu adorava boneca, mas todo ano pedia a mesma. Então não era bem para colecioná-las. Gostava dessa em específico. Também adorava ler e escrever em meu diário – meus irmãos não tinham um e é claro que não queria nunca que descobrissem meus segredos mais íntimos: qual minha música favorita da Sandy e Júnior, o que sonhei na noite passada, o que eu pensava em ser quando crescesse, qual menino eu estava gostando naquele mês, etc. O fato é que nossos Pais sempre diziam da importância de respeitar os espaços e as privacidades. Ninguém lê o diário dela sem permissão. Não é pra entrar no quarto do irmão e usar algo que é dele sem pedir. O videogame era dos três, embora eu não ligasse nenhum pouco e por isso não participava da divisão dos tempos pra jogar. Então ele passou a ser dos meus irmãos e da nossa Mãe, que curtia jogar Fifa. Quando brigávamos, eu quase sempre levava uns petelecos mais fortes e dava os mais fracos por uma característica minha: sou banana até hoje. Tenho preguiça de fazer força, por isso musculação pra mim é um martírio. Acho que às vezes nossos pais diziam que não era pra meus irmãos baterem em mim por eu ser menina, mas eu lutava – leia-se apanhava de igual pra igual nas brigas mesmo assim (?). Além do que o discurso era que ninguém podia bater em ninguém, que violência só geraria mais violência e que poderíamos nos machucar feio e todo aquele sermão de Mãe (imagina se pega no olho, olha que perigo brincar assim, etc.). Por outro lado, minha melhor amiga de infância, a Carol, sempre foi beeem mais forte que eu. E é até hoje. Arrisco dizer que possivelmente ela tenha mais força física que alguns homens e eu morro de orgulho dela, aliás. E é isso. Brincávamos de boneca, mas também nadávamos, fazíamos cabana, assistíamos filme. Muitas vezes com o irmão dela, o Rafa ou com os meus, Mateus e Marquinho. E nós de vestido! De shorts e blusinha, de roupa de piscina… Teve uma época, mais na adolescência, que só usava calça de abrigo esportivo pra sair de casa. E boné. Tinha um igualzinho ao do meu irmão Mateus. Lembrando agora, algumas pessoas diziam que eu usava “roupa de menino”, mas não me importava. Pensava que era diferente e por isso chamava atenção. Além do mais, minha Mãe me elogiava sobre ter meu próprio estilo, então mesmo insegura, achava interessante não estar igual, sei lá… Hoje em dia adoro usar as roupas do meu marido. São bem confortáveis, inclusive. Uso especialmente as camisetas – ele tem muito bom gosto (?). Morei fora da cidade dos meus pais pra estudar, aprendi a tomar cerveja e dancei até o chão. Sou amante de Carnaval na rua. Tomei porres e nosso Pai cuidou de nós igual. Nunca ouvi um sermão que isso “era feio por eu ser menina”. Se pensavam ou pensam assim, nunca me disseram e ainda bem! Não sei e nem quero saber. Sigo descobrindo o que quero vestir, como prefiro meu corpo, o que decido mostrar ou não de mim e quais são as regras que vou seguir. Tenho minhas tatuagens, meus vestidos e sapatos altos. Não estou aqui pra dizer que meus Pais são perfeitos e infalíveis, que somos todos mega desconstruídos e livres. Não é isso não! Escrevi porque pensei em tudo isso e quis usar esse MEU espaço pra dizer que cada um que use o que quiser, brinque do que quiser e seja o que quiser. Não vem com essa que foi “figura de linguagem”, “só um exemplo” e blá blá blá. Deixa a infância LIVRE dessas besteiras. Aliás, rosa, azul, roxo, preto, laranja… NADA DISSO IMPORTA quando não se tem o que vestir. Essa inclusive deveria ser a preocupação (ou uma das) do nosso cenário atual, não? Então me poupem, se poupem e nos poupem.

0

Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.