Cotidiano

O óbvio não existe!

Estou acompanhando tudo e tentando aprender/entender/compreender (não exatamente nessa ordem) nossa atual situação política, embora não consiga acreditar em nada que leio e ouço.

Fico desconfiada e até meio perseguida:”o que será que estão nos escondendo?”.

O fato de não ter me posicionado com um texto grandão até agora tem uma razão: eu não tenho mesmo um posicionamento.

Não estou conseguindo. Me julguem: coxinha, petista, peemedebista, petralha, comunista, leite com pêra, alienada e sei lá mais o que que virou moda falar, tudo junto e misturado.

“Criada com Vó” não me ofende não, porque minha Avó é uma lindeza linda e continua sendo parte da minha educação moral e afetiva. E outra: coxinha é uma delícia, gente! Onde já se viu usar coxinha como um “tipo de ofensa”?

Mas enfim, eu não sei mesmo o que fazer e o que pensar. Não porque não quero, não me interesso e muito menos porque não me importo. Sei (ou sabia?) dos valores que aprendi faz tempo, com meus pais, meus irmãos e professores.

Sei exatamente com o que concordo ou discordo – e revejo minhas crenças/valores com frequência. Mas acho que aconteceu o pior: não acredito em mais ninguém; não consigo nem considerar o que seria “menos pior”.

É uma avalanche de informações que se atualizam minuto a minuto; uma chuva de compartilhamentos nas redes sociais, uma cobertura midiática ao vivo e a dores (do tipo dane-se em quem vai doer!), que também é reducionista, direcionada e tendenciosa.

Corrupção, gritos de ordem, ligações grampeadas, constituição, foro privilegiado, manifestações, buzinas e panelas, indignação e manipulação, massa de manobra: redução de todos ao maior clichê que é ser “o povo brasileiro”, cuja memória recente é seletiva e frágil. Na minha santa ignorância, fico tentando pensar onde eu caibo e o que fazer.

Respeito os movimentos alheios e até admiro. Não fui a nenhuma manifestação por medo e incredulidade minha, mas, repito, respeito e admiro. Falo sempre sobre ser livre.

Mesmo que discordasse de quem vai, isso seria apenas e somente um ponto de vista meu, que tem que caber, mas é tão somente só isso. Porque tem que coexistir com aquilo que não concordo e não me identifico.

Principalmente por ser e estar livre (estou? estamos?) é que não tenho o direito de ofender, xingar ou qualquer coisa do gênero aqueles que tem posicionamentos contrários aos meus. Isso não tem fundamento e justificativa nenhuma de ser: isso não é Democracia.

Difícil é dormir com esse barulho! E acordar também, e comer, e sair de casa, e trabalhar, e viver…

Apelo para as boas vibrações e tento me equilibrar, tentando forçar meu olhar na direção de um horizonte mais sereno e de lucidez – artigos de luxo, raridade dos e nos tempos atuais.

Ah! Não estou inerte considerando a mudança que eu posso ser e fazer num lugar chamado todo dia: na fila do banco, da padaria, no estacionamento com vaga preferencial, no troco que vem a mais, na conta do bar que está errada, nos impostos que pago.

Em tudo aquilo que eu faço quando ninguém está olhando. É pouco? Sim. O mínimo, também acho. Isso é sempre possível – porque é deve ser permanente. É o substrato, a base. O básico. Mas, pelo visto, não necessariamente o óbvio.

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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