Cotidiano

“Quem é a obstetra aqui? É tu?”

Soube dessa reportagem (https://emais.estadao.com.br/blogs/ser-mae/estudante-de-medicina-escreve-desabafo-depois-de-assistir-a-parto-violento-feito-por-professora-chorei-de-raiva-e-frustracao-no-quarto-dos-internos/) por uma pessoa Querida, que me sugeriu ler e comentar. Deixei então para fazê-lo quando estivesse tranquila. Já havia almoçado e estava me deliciando num sorvete de baunilha com cookies, quando acomodada no sofá, comecei a ler.

Imediatamente precisei parar. Senti meu corpo tensionando. Senti náusea. Para quem não leu, vou tentar resumir o caso: uma estudante de medicina relata a violência obstétrica que presenciou ao assistir o parto de uma garota de dezesseis anos, gestante pela primeira vez, executado por uma médica – sua professora. Um show de horror. Um filme de terror. É tanta indignação que não consigo nem qualificar…

Embora recebam pouco ou quase nenhum destaque, há trabalhadores implicados, atuando para fomentar ações que humanizem, signifiquem e dignifiquem o Sistema Único de Saúde brasileiro, fomentando espaços de reflexão e discussão das Políticas Nacional e Estadual de Humanização.

Falo isso porque já estive desse lado da “corda” – quase um cabo de guerra, pois pensar sobre as ações profissionais exige espaços qualificados para que as trocas sejam possíveis; espaços que sejam éticos e políticos (não politiqueiros). Repensar antigas e novas práticas exige análise crítica; os espaços precisam estar preparados e protegidos para reconhecer as falhas, para planejar ações que modifiquem a realidade a nossa volta. Muitos e muitos trabalhadores do SUS “puxam essa corda” todos os dias, sem perder as esperanças, apesar do desânimo frente à falta de investimento e fomento públicos – me refiro aqui a todas as esferas: federal, estadual e também municipal – e a constante desqualificação do SUS.

Aí, uma médica, professora – que em teoria deveria ensinar e ser referência para seus alunos – realiza um parto desses. Em vários momentos, segundo o relato, a médica perguntava aos presentes, quando questionada:”quem é a obstetra aqui? É tu?”.

Definitivamente, a obstetra nesse dia também não foi a senhora. Porque não basta conhecer a técnica. Não basta ter formação de nível superior. A senhora estava tocando outra vida, uma outra pessoa, duas, aliás. Contando com a mãe da gestante que a acompanhava, três.

A senhora agiu com violência de forma consciente e lúcida, desprezando as leis vigentes e as práticas atuais. E o fez por escolha, pois certamente conhecia os recursos dos quais poderia ter lançado mão – as alunas presentes inclusive sugeriram e reivindicaram por isso. A senhora foi cruel. Foi desumana. A senhora não poderia trabalhar em lugar algum. Muito menos no SUS.

A senhora parece que esqueceu que também é mulher. A senhora não se importou com as tentativas que suas alunas fizeram, com toda sutileza, já que a relação de poder e hierárquica estava fortemente estabelecida por você.

A senhora humilhou, subestimou e fez reféns, que foram obrigados a assistir essa violência gratuita, silenciando essas vozes, que provavelmente irão se calar por medo de não terem “nem isso” quando necessitarem. A senhora jogou no lixo todo encantamento que suas alunas poderiam ter presenciado. A senhora privou uma garota de dezesseis anos de vivenciar um parto humanizado, cuidadoso e acolhedor – que por si só já garante momentos de dor intensa. A senhora não tinha o direito de querer puni-la. A adolescente já estava experimentando as consequências de sua escolha – porque isso é inevitável, a vida é assim. Não te cabia – e não cabe – nenhum julgamento de sua parte.

A senhora não podia ter permitido que alguém, através de suas mãos, sentisse mais dor, tivesse mais medo, mais angústia e desespero. A senhora fez com que uma mãe – a avó do bebê – presenciasse todo o sofrimento de sua filha, porque onde só tem tu, “vai tu mesmo”.

A senhora deixou escapar a chance de receber um bebê com o cuidado que ele merece – se sua mãe o planejou ou não, se ela sabe quem é o pai ou não, se ela trabalha ou estuda, isso não te diz respeito. [como se a vida do lado de fora já não fosse difícil e complexa o suficiente].

Não é assim que iremos resolver a ausência de planejamento familiar neste país, minha senhora. Não é fazendo de um parto um castigo, que vamos conscientizar as pessoas. Não, senhora, não é assim. Não pode ser assim. Faço de tudo para acessar meus recursos emocionais e tentar entender o seu lado da história e relativizar.

Fico pensando que poderia estar cansada, também descontente e imobilizada pelos problemas, complexidades e precarização da saúde que estamos vivenciando. Mas mesmo assim, não consigo te defender. Pior: não consigo te desculpar, ainda sabendo que seria melhor não carregar esse afeto comigo.

Também, segundo o relato, a senhora deixou sua aluna fazendo a sutura do procedimento desnecessário que suas mãos realizaram e foi dormir…

Todo meu afeto e solidariedade à gestante e agora mãe, familiares, às alunas e demais profissionais que vivenciaram este triste episódio.

A senhora realmente conseguiu pegar no sono e descansar?


Agradecimentos à Neia Souza e Cris Ribeiro pela sugestão e ajudas técnicas.

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

4 Comentários

    • @ni_mello

      Ro, é muito triste. Acho que para quem já vivenciou uma gestação e um parto, deve doer ainda mais, na alma. Como você disse, de forma mais leve que eu: a colheita é aqui. Um beijo e obrigada por me escrever. Me fez feliz!

  • Ana

    Li há algumas horas o relato da aluna, super angustiada com a atitude da professora e se sentindo tão impotente. Achei a moça corajosa tentando colocar para a avó que não, não precisava ser assim! Precisamos de mais gente com coragem para reclamar!!! Não precisamos aceitar tudo que vem errado como se merecesse mos pouco sempre! Você coloca em palavras toda a dor e revolta de uma profissional dedicada. Um exemplo do que deveria ser o padrão do nosso serviço social! Especial como sempre!

    • @ni_mello

      Obrigada pela consideração em escrever para mim. Sabe, tive receio de postar este texto, tenho consciência de que fui dura com as palavras – sendo fiel ao meus afetos. Produzi um texto denso, mas esse assunto precisa de luz. Em todos os sentidos. Agradeço por todo seu estímulo e por também acreditar que meus textos comunicam e fazem pensar. É tudo o que desejo, da forma mais intensa e alegre possível, ainda que o tema não seja doce e leve, maneira com a qual prefiro enxergar a vida. Um beijo cheio de afeto e você é sempre, sempre bem-vinda por aqui.

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