Cotidiano

Hashtag viajei: a letra ípsilon

Estava no ônibus e a sua saudade me apertou o peito. Sentei na poltrona, acomodei a mochila e a garrafinha de água. Ajustei meus óculos e iniciei a leitura de um livro que me foi recomendado. Logo nas primeiras páginas, comecei a ficar sonolenta e com certa dificuldade de me concentrar.

Um senhor que sentou-se ao meu lado, insistia em assistir aos vídeos de seu celular sem fones de ouvido. Inclusive, acordei de sobressalto com o áudio de um deles e não dormi mais. Fiquei meio brava, confesso. A senhora me conhece, né? Como não consegui dormir de novo, pensei que poderia tentar retomar a leitura. Nesse pequeno instante me atentei às poltronas da frente.

Uma garotinha de cabelos pretos e sua avó, que naquele momento lhe ensinava pronunciar uma letra danada do alfabeto: “ípsilon”. A menina dizia: “ipisílon” e a avó repetiu e repetiu, até que contentou-se com a pronúncia da neta. Elas riram uma pra outra e uma da outra. Então, a neta aconchegou-se no colo da avó, que começou a acarinhar seus cabelos, num cafuné manso e despretensioso.

Estava com o livro em minhas mãos, mas fui capturada por esta cena e não tive como fugir. O senhor ao meu lado continuava com seus vídeos e músicas. Respirava de um jeito que dava pra ouvir, ao mesmo tempo engraçado e um pouco irritante. Continuei olhando neta e avó. A menina observava o mundo lá de fora através do vidro, enquanto recebia aquele carinho preguiçoso. Ficou alguns minutos assim e já levantou, toda falante.

Pensei que se fosse ela, ficaria mais um pouco e sorri. Elas riram e falaram mais algumas coisinhas, até que o ônibus fez uma parada. Desci e lavei meu rosto. Vi que tomaram um sorvete… Como a senhora gostava! Que saudade de encher meu pote com sorvete e algumas besteirinhas e apreciar sua companhia. Seu semblante calmo e a sobremesa que parecia te fazer mais alegre.

Segui viagem, como tenho feito desde que me despedi da senhora. Sua falta é doída, vó.

Sinto saudade do carinho, do seu jeito certeiro de me agradar, da sua compreensão… Sinto falta do toque das suas mãos, de ouvir sua voz ao telefone e comentar a novela, o clima, a vida… De ser avisada de que tinha um doce em sua casa à minha espera, de quando nos despedíamos e a ligação terminava, acompanhada de um pedido para que me cuidasse e que permanecesse bem. Nosso amor faz destas memórias as joias mais preciosas e brilhantes, que me enfeitam o coração e toda essa saudade…

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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