Cotidiano

Eu também queria que todos fôssemos felizes, desejados, planejados…

Eu tentei. Eu tentei me abster. Aqui dentro está claro. Decidido. Definido. Tentei me abster daqui: o muro das lamentações, o grande tribunal, o circo, o teatro, o museu; a janela por onde se espia a vida do outro, seja lá quem ele for. Espio pela minha janela e com as minhas lentes.

É só a vida do outro, mesmo. Mas não consegui. Fui fraca. Ou uma forte com medo. Não consegui me calar. Descriminalizar o aborto não é apertar o gatilho. É tão somente não decidir pelo outro. É deixar a responsabilidade e as consequências puramente em suas mãos. É o livre-arbítrio.

Sim, eu também queria que todos fôssemos felizes, desejados, planejados e amparados. Essa é uma dolorosa constatação que carrego diariamente, porque a realidade é quase sempre o contrário de tudo isso que desejo, pra mim e pro universo.

Ser a favor da descriminalização não me faz apoiar esta atitude; não diz que eu seja contra a vida; diz menos ainda se eu faria ou não. Isso diz, sim, que desejo pra caramba que você seja livre o suficiente para arcar com o peso das suas escolhas e decisões.

Que eu seja livre, porque eu também sou você e a gente se afeta a beça nesse mundão.

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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