Cotidiano

Frutinha miúda

Todo dia a gente fala que tá na precisão disso, daquilo e daquilo outro,

Empresto as escutadeira e matuto a escutação…

Até parece que a sacola da vida anda cada vez mais funda e vazia, né não?

Será que tá furada, a coitada?

Mais alguém se apercebeu?

Botamos coisas lá todo santo dia, o d’inteiro, e não há meio dela enchê.

A gente trabalha, trabalha e trabalha.

Compra arroz, feijão, jornal e papel,

E brinquedo, e sapato, e carro,

E roupa, e terra, e estante e mel.

Paga luz e paga água, faz viagem, toma café, trás presente e faz reunião.

Na mesma hora, enfia tudinho na sacola, com pressa e sem nenhuma precisão.

Por Deus, Nossa Senhora!

Que não há meio de abarrotá essa sacola.

E óia, a gente quase que só dança na rua, porque tá atrasado e chove.

A gente corre até e chega a pé, de pé molhado. E fica brabo.

A gente chega e fica em pé, né? Mai queria memo era tá deitado.

A gente cansa, a gente empenha e barganha o trem que pode enchê essa bendita sacola de vez!

E ela continua lá,

É só despejá pra vê: tá vazia, vazia.

Igualzinho barriga de gente que tem fome.

Lá longe se avista uma janela,

Diz que é a vista que amostra o futuro.

A gente fica daqui mas fazendo mira lá, todo dia, todo santo dia.

Chega em casa e não vê comê, para deitá.

Anda, que amanhã é dia, menina!

E tudo isso de novo e outra vez.

Acho que lá do céu,

Deus espia a gente e tenta assoprá: enche essa sacola de alegria modesta,

Igual de piquenique com criança!

Coloca nela as lembrança dos doce de vó, dos bolim de fubá com goiabada,

Enche de quietim, dos barulhim tudo que a vida dos outros faz quando já é hora de dormir.

Enche de lembrança do pijama velho, da infância,

Aquele que tinha bolso, que servia pra guardá sonho bom.

Enche de sol quente e de chuva, pra aguar o vão da vida.

Põe também uma vassoura e um espanadô de pó bagunçado,

Que vai tê serventia pra varrê e afugentá as tristeza do coração cansado.

Enche de história, de carta escrita, de amigo bão.

Não é pra esquece do calo que o sapato fez, mai é aquele que virô lição!

Ajunta tudo lá!

Acho que Deus deve de resmungá baixinho:

É só planta lá dentro, fio e fia,

Credita que dá certo,

E faz mal não se fizer mundiça.

Ele deve torcê pra um dia a gente atiná,

Que uma sacola só pr’essa vida e até muito, sempre dá!

Deve é ficá numa agonia só, igual mãe, pai e vó,

Quando ficam tudo juntadim em oração,

Torcendo que só pr’a gente logo pressagiá,

E comecá a enchê a sacola da vida de tudo aquilo que nasce e dá no pé…

Mai que não enche nem uma mão!

Ele deve de dizê:

Pode botá até um cadinho de preguiça, que né problema não.

Também é pra guardá inteirinha,

Aquela árvore mágica

Que tem um fruto de nome curtim,

E é importante pra todas gente,

Desse mundo inteirim!

De norte a sul, de leste a oeste.

É frutinha miúda, menor que café,

Tem só duas letrinhas.

E sabe qual é?

Vô dizê logo, sem mais demora:

É a fé, meu sinhô e minha senhora.

 

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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