Cotidiano

Bepantol pra dor de estômago?

Diálogos na farmácia, quarta-feira de manhã…

Me dirijo até a fila e um senhor de boné, com uma bolsa azul marinho a tiracolo, acomoda-se no banquinho alto, próximo ao balcão. Também usava calça social e camiseta de gola polo. Tinha um chaveiro preso ao passante. Estava ofegante, respirando forte, como se fizesse algum esforço a mais para o ar alcançar seus pulmões. Segurava um bilhetinho escrito à mão, a receita médica e seu documento.

Uma moça, à minha frente, sugere que ocupe as cadeiras do atendimento preferencial. Ele sorri, e responde que por serem muito baixas, seria mais difícil e trabalhoso se levantar depois. Além do mais, como já estava sentado, disse que preferiria manter-se ali, daquele jeitinho, pra se cansar menos.

Essa moça em questão, segundos antes, havia reclamado do preço do xampu Seda, que não sei onde era bem mais barato. Percebendo uma certa demora no atendimento, a moça vai embora. Ouvi que sussurrou algo como “só tem velhos hoje”, em tom de reclamação. Olhei bem para seu rosto, mas dessa vez não sorri não. Eu, hein? Eles são velhos e você que é chata? Nenhum deles falou nada, nadinha mesmo sobre ser “parpiteira intrometida”. E nem sobre sua cara de coruja seca. E se o xampu tá caro nessa farmácia, vai comprar onde está mais barato, oras! e não fique alugando minhas orelhas, falando que só tem velhos com esse tom ruim.

Os velhos estão dominando o mundo, minha senhora! E se der tudo certo, muito em breve você também será uma velha. E uma velha com cara de coruja seca, diga-se de passagem. No fim, achei bom ela ter ido embora – não por sua cara de coruja seca em si, porque até que lido bem com caras de coruja seca, mas sim porque passei a ser a primeira da fila e pude acompanhar, de camarote, um diálogo mais que maravilhoso.

Retomemos a cena: o senhor de boné segue sentado na banqueta alta, aguardando sua vez. Eu na fila. Atrás de mim, um outro senhor começa uma interação com o homem de boné, que estava sentado: o senhor está com dor de estômago?, pergunta em tom solidário. Enquanto isso, o do balcão segue na espera, sorridente. Como parece não ter ouvido a pergunta, reforça seu pedido à farmacêutica: não esquece do Bepantol, viu?

Nisso chegou minha vez e fui para o outro balcão. O senhor, que agora é o primeiro da fila, pergunta novamente: ei, está com dor de estômago? Eles finalmente se olham e o homem de boné responde: eu? eu não! Ah tá. É que o senhor pediu um Bepantol. Isso é remédio de estômago, não é? O senhor de boné ri. Eu também. Acho que o homem da fila pensou que Bepantol era tipo Omeprazol. Nisso, a farmacêutica esclarece que era uma pomada. Mas ela falava tão baixinho que quase sugeri: fala pra fora, moça. Vamos, ânimo! Coragem! Prometo que não falei nada. Tem dias que sequer quero falar, então respeitei, né? Segui acompanhando as conversas.

O senhor de boné então completa a informação, dizendo que é pomada pra tratar ferida. O senhor da fila dá uma risadinha, como quem acha graça de si mesmo. Fiquei na expectativa de que o diálogo continuasse, para que nós pudéssemos saber quem era o dono da ferida, o que aconteceu pra ferida aparecer, etc.. Só que o senhor de boné agradeceu e dirigiu-se até o caixa. Infelizmente, essa história termina aqui. Não pude saber qual foi o pedido do outro senhor, o que estava na fila depois de mim. Nem qual ferida seria tratada com Bepantol… Então desejei que todos estivessem e ficassem bem. E, claro! Que pessoas com cara de coruja seca não cruzem seus caminhos com tanta frequência. Como ela falou baixinho, tenho certeza que não ouviram sobre “só ter velho na farmácia hoje”. Tá vendo? De repente, ter um probleminha de audição às vezes pode ser até bom. Só tinha velhos na farmácia hoje. Pra ela, o mais puro azar. Pra mim? Gostoso igual conversa de botequim!

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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