Cotidiano

Boa digestão

Pois é. Tem acontecido isso comigo: de repente abro os olhos, ainda de madrugada e o sono vai embora, correndo de mim e me obrigando a escrever.

Não sei se já dormi com as palavras acumuladas na cabeça e, como num protesto, elas me acordam no meio da noite para finalmente ganharem liberdade e conseguirem um novo lar: os olhos dos outros; o papel dos outros, a cabeça dos outros.

Palavras são vivas e donas de si. Me acordam e ainda tem a ousadia de trazerem uma espécie de fome da madrugada. Mas enfim, já que cá estou a fim de libertá-las, mãos à obra! Tenho pensado muito sobre o quanto estamos vivendo tempos difíceis.

Seja magra, saudável, sorria! Tenha uma pele linda, acorde feliz pois, caso contrário, sua receita para a felicidade será fajuta e incompleta e você, pobre mortal, será observada, avaliada e certamente: reprovada. Olha que chatura, gente? Que peso desnecessário. Que mergulho raso! Que perigoso…

Qual o sentido de existir, nessa perspectiva? Fotos lindas, sorrisos claros e sol brilhante nas redes sociais. E aí dentro? Oi? Cê ainda tá aí? Tá tudo bem? Você existe e reside em todos esses compartilhamentos de fotografias com legendas de frases famosas? Ei, cadê tu, tatu? Socorro!

Nesta rebelião palavresca fico eu aqui, a pé e sem sono. Liberto as palavras e só o que me resta é observar, ver no que vai dar… Calma que tenho mais a dizer. Tão mais fácil criticar e mandar o outro fazer! Pior: fazer o que não fazemos. E digo – escrevendo – mais: quando decidimos fazer alguma ajuda, ela precisa estar pautada na perspectiva de necessidade que o outro tem e reconhece – ele é quem sabe onde dói; é o famoso calçar os sapatos do outros.De repente, esse outro pode estar usando um sapato apertado pra chuchu! Que faz calo. Bolhas. Que machuca.

Pode estar descalço – talvez ele próprio é quem decidiu deixar seus sapatos por aí. Naquela hora pareceu ser o melhor caminho, a coisa certa a fazer… Então [insira aqui seu nome] se for ajudar, joia, mas vai na caluda. Vai e “só” ajuda. Porque falar, até papagaio fala.

Essa rebelião de palavras, que vale pra você e pra mim, termina assim, à palo seco, com casca e tudo. Então: boa digestão!

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Poema em linha reta, de Álvaro de Campos – Fernando Pessoa

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Uma terapeuta ocupacional, que escreve para (tentar!) entender o (seu) mundo.

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